Hoje tenho a honra de publicar aqui no meu blog o amigo Almir Zarfeg (também chamado de A. Zarfeg ou AZ), da distante e querida Teixeira de Freitas, capital do extremo sul da Bahia. Ele é poeta e jornalista. Preside a Academia Teixeirense de Letras (ATL).
Conheci o Almir pela rede social Facebook, que, apesar de dividir opiniões, pode ser uma ferramenta útil no nosso dia a dia, se for bem utilizada. Através das redes sociais estreitamos distâncias e mantemos um contato frequente com os amigos e colegas esparramados por toda a imensidão desse país e fora dele.
E foi entre curtidas e compartilhamentos que esbarrei no poeta Almir Zarfeg e seu talento indiscutível. Em pouco tempo, alicerçados pela literatura, construímos uma grande amizade. Prova disso foi a sua participação em coletâneas organizadas por mim, entre elas: “Olhares Múltiplos” (2016) e a premiada homenagem a João Guimarães Rosa “O que a vida quer da gente é coragem” (2018).
Eu tive a honra, em duas oportunidades, de ser jurado dos concursos literários promovidos pela sempre competente Academia Teixeirense de Letras.
Então, o meu desejo é que
nossa amizade se perpetue e que assim possamos partilhar momentos únicos e
inesquecíveis que somente a literatura proporciona.
Seja sempre bem-vindo, meu amigo!
Xau e inté a próxima!
ANOSMIA
Por Almir Zarfeg
Estava feliz porque voltara a sentir cheiro e, por isso, vivia com as narinas abertas para o mundo, ou melhor, para os cheiros mundanos.
Seu status agora
nas redes sociais era: Estou sentindo cheiro de novo. Obrigado, doutor Carlos
Araújo.
A chatice ficava
por conta do ensaio da formatura em Letras marcado pro dia 12 de agosto, às
19h, no Cenário Eventos.
— Um dia antes da formatura, da colação de grau, certo?
— Ok, obrigado, entendi. Os convites chegaram?
— Chegam dia 28 próximo…
— Ok, mãezinha.
— Meu nome é Tatiane e gostaria que me chamasse assim.
— Tatinha posso?
— Não. Tatiane ou Taty. Sem intimidades, faça o
favor.
— Se for para te chamar de Taty ou Tatiane, prefiro
não falar mais com você. Não aguento isso. É muito castigo para um homem só!
— Não quer dizer não!
— Mudando de assunto, eu queria tanto ser o orador da
turma…
— Já lhe disse, converse com Flávia… Ela está
viajando, chega na segunda, liga para ela.
— Me dá o celular dela, da gorducha, por favor.
— 9-9976…
— Agora me dá seu número novo…
— Pra quê?
— Te passar lindas mensagens…
— Não quero receber.
— Continua chateada comigo?
— Passe para ela, sua mulher, não para mim, não confunda
as coisas.
— Tudo bem, só mais uma coisa…
— Não tenho por que receber lindas mensagens suas.
Acho que você tem que passar para ela, não para mim.
— Só mais uma coisa: é para levar alguém comigo no
ensaio?
— Ela não disse, mas acredito que o par que vai
entrar com você… Mas vou saber e, depois, passo essa informação.
— Ok, obrigado por tudo.
— Não tem de quê.
— Já arrumei uma gata para ser meu par…
— Que bom!
— Olha, quando você estiver menos amarga, me avise,
viu?
— Não estou amarga. Pelo contrário, nunca estive tão
doce…
— Não parece…
— Tão feliz…
— Ié?
— Tão satisfeita…
— Que bom. Então é outra Tatiane.
— Sim.
— Não é aquela Tatinha que eu conhecia tão bem…
— Com você sou essa agora.
— Essa não quero. Prefiro ficar sem…
— Aquela rapariga morreu junto com suas ofensas.
— Meu Deus!
— Tchau.
— Não foi um prazer falar com você. Que coisa!
— Ok.
— Queria te falar mais uma coisa, mas, pelo jeito,
não vale a pena…
— Não vale mesmo.
— Deixa te cheirar pelo menos mais uma vez na vi-da.
Deixa!
Tem
um corpo caído no beco em frente à porta do meu barraco. Mataram o jovem no fim
da madrugada. Acordei com a gritaria, ameaças, e na confusão, o estampido de
dois tiros, mas permaneci deitado na cama. Tiros na noite são frequentes por
aqui, na favela. Quase todo dia surge um cadáver. Porém, hoje o barulho foi bem
próximo. Lembro-me de ouvir o som de sapatos correndo, logo após os disparos e,
segundos depois, um pedido de socorro, numa voz em agonia. Depois o silêncio na
escuridão do beco. Agora, três horas depois do ocorrido, a polícia subiu o
morro, isolou a área e a vítima está coberta por um lençol. Tentaram identificá-lo,
mas os bolsos estavam vazios, e aguardam agora a chegada da perícia.
Há
pouco menos de uma hora, aos primeiros raios do sol, homens e mulheres a
caminho do trabalho e crianças indo para escola, depararam com o cadáver. Nesta
hora eu já observava tudo pela fresta da janela. O corpo de um jovem mulato, de
bruços, a cabeça na vala, o sangue empapando a camiseta branca nas costas,
bermuda preta, chinelos havaianas, o rastro vermelho pelo chão a se encontrar
com o esgoto, que escorria a céu aberto há mais de semana. Os curiosos, com o
celular na mão, erguiam-se na ponta dos pés, na busca por um melhor ângulo para
a foto ou filmagem. Os moradores tentavam identificar a vítima, outros faziam o
sinal da cruz, outros retornavam assustados por onde vinham. E havia aqueles
que passavam, como se aquela cena não existisse, fosse invisível.
Neste
instante, dois detetives da polícia civil interrogam alguns vizinhos e curiosos,
em busca de informações. Um deles bate à minha porta.
“Você
mora aqui?”, pergunta o detetive num tom ríspido, ao atendê-lo.
“Sim.”
“Fala
mais alto, por favor, quando responder. Mora mais alguém aqui com o senhor?”,
pergunta retirando os óculos escuros e olhando para dentro da casa, a procura
de alguém.
“Não,
senhor.”
“Você
sabe quem fez isso? Viu ou ouviu algo? O crime aconteceu bem aqui na sua porta.
Nada?”
“Não senhor, vi nada não”, respondo, desviando
o olhar.
Ele
se afasta e, ao se aproximar de seu colega, comenta algo em baixo tom, e ambos
me encaram em silêncio. Conhecemos as regras do morro. Não podemos prestar
socorro, testemunhar. Apenas ver, ouvir e fingir que nada acontece. O medo comanda
nossas vidas.
Moro
na favela há alguns meses. Aqui tudo começa como provisório e irregular, com um
jeito ou arranjo. Cheguei depois de ter a vida
arruinada. Perdi a empresa, casa, família e sonhos. Graças a um amigo de longa
data, vivo de favor até conseguir me reerguer. Tive sorte de não acabar
mendigando nas ruas, vivendo debaixo de algum viaduto. Depois de perder tudo,
eu estava disposto a me matar, se não fosse a minha covardia em tirar a própria
vida.
Observo,
agora, uma mulher negra, magra, cabelos grisalhos despontando por baixo do
lenço preto, de braços dados com uma jovem mulata, de andar desengonçado. O
detetive, o mesmo que me interrogou, conversa algo com elas e juntos avançam em
direção ao cadáver. Ele ultrapassa o cordão de isolamento seguido por elas,
abaixa-se e levanta o lençol sobre o corpo. A mulher leva as mãos à face, os
olhos arregalados por detrás dos óculos, o desespero ao reconhecer a vitima.
Ajoelha-se, apoiando a cabeça no corpo caído enquanto lamenta e chora, na mira
dos celulares.
“Meu
filho, meu filho… Ah, meu Deus, por que, por quê?”
A
mãe entra em estado de choque, se contorce no chão e desfalece. O detetive e a
mulata a amparam. Pedem urgente uma ambulância. Um senhor piedoso, que
acompanhava tudo a distancia, oferece o casaco para abaná-la. Um copo com água
e açúcar vem nas mãos de uma senhora, também de cabelos grisalhos, moradora em
frente ao meu barraco. Outros rostos chegam às janelas. A aglomeração aumenta e
a rua fica intransitável. Os policiais militares temem qualquer reação e tentam
afastar as pessoas. O sargento comunica pelo rádio, pedindo reforço e exigindo
a presença da perícia o mais rápido, devido à falta de segurança.
Ouço
as sirenes se aproximando. Uma ambulância do SAMU e mais viaturas policiais estacionam
na entrada da rua. Muita gente se dispersa e some pelos becos. É muito barulho
por nada. Daqui a algumas horas, será apenas uma lembrança ou manchete a ser
lida nos jornais do dia seguinte. Sempre foi e sempre será assim. Aqui não
existe tempo para o luto.
Os
paramédicos socorrem a mulher e a encaminham numa maca para ambulância, a
mulata sempre ao seu lado e preocupada. A rua já vazia, o cadáver não é mais
novidade. A perícia faz seu trabalho. Os policiais militares tensos, os fuzis
nas mãos, sempre atentos, a vigiar qualquer movimento suspeito. Outros parentes
da vítima, suponho, chegam, pedindo informações. São orientados pelo sargento e
observam a distância. O rabecão chega, sob um sol de meio dia, e leva o corpo
para o necrotério.
Decido,
então, limpar a cena do crime, liberada há poucos minutos pela perícia. Estico
a mangueira, ligo a torneira nos fundos do barraco, pego a vassoura. A vizinha
generosa rapidamente chega à janela e oferece ajuda. Dispenso. Prefiro ficar
comigo mesmo. No chão, coágulos de sangue escuro, cheios de moscas.
Um
rapaz aparentando dezessete anos, vem pela rua, de boné, bermuda e camiseta,
pele escura, calçando um tênis de marca, tatuagens no antebraço, corrente de
ouro e outros acessórios, para pouco adiante e observa a cena do crime. Um
minuto depois, outro rapaz, de vinte anos, mais bem vestido que o primeiro,
aproxima-se. Escuto a conversa.
“Véy,
foi aqui que rolô a parada. Subiram o Pinguinho”, informa o primeiro
rapaz.
“Foi os
homi?”, pergunta curioso o segundo rapaz.
“Que
nada. Maior vacilo. Não passô o
troco, mano, para namorada. Ficô com
a grana.”
“Muito?”
“Que
nada… O maluco ficô com troco de cinco
reais e a mocréia na maior viagem, sentou o dedo nele.”
Os dois se afastam lentamente, seguindo seus caminhos, quando ainda ouço um deles.
“Véy, será que vai rolâ o baile funk, na sexta?”
Foto: Pexels
Pensar…
Análise crítica de Wagner Andrade
Infelizmente, se torna praticamente impossível abordar os fenômenos que permeiam a esfera urbana, sem levar em conta o âmbito da violência. Mostra-se tão patente no dia a dia das cidades, ainda mais envolvendo os aglomerados urbanos, típicos das metrópoles e capitais. Os registros policiais sucedem-se, a todo vapor, os números simplesmente impressionam e servem para avultar ainda mais as chamadas estatísticas do crime. Mas o mais triste é quando se percebe a sua banalização, o que não deixa de envolver os ambientes mais hostis e certos meios e camadas degradantes da nossa sociedade. A partir de um único episódio mostrado nessa narrativa, cujo problema se percebe tão grave e visível, embora se torne motivo de mero “espetáculo” para muitos, a envolver a realidade dos morros, das favelas urbanas, o presente conto se permite tocar nessa melindrosa questão, provando que, mesmo se configurando como história curta, não se furta às mazelas ou aos graves problemas de um cotidiano ríspido e hostil, e que tanto oneram a vida social.
O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África. Padre Antônio Vieira (Epigrafe do livro Escravidão)
Foto: Sempre um Papo
No dia 09 de outubro de 2019, uma quarta feira,
novamente percorri (ida e volta) 160 quilômetros de Itaúna a cidade de Belo
Horizonte para mais um evento do Sempre um Papo.
Para muitos, isso é loucura, mas para mim é uma das aventuras que mais gosto. Decidi ir de última hora, pois sempre gosto de me surpreender. Aliás, era preciso, pois o autor convidado era nada mais, nada menos que o escritor e jornalista Laurentino Gomes, autor da consagrada trilogia, os livros 1808, 1822 e 1889.
Os livros didáticos e acadêmicos, na opinião do autor, são essenciais para as pesquisas, mas frios para leitura do público em geral. Numa narrativa menos técnica e mais atraente, Laurentino Gomes conquistou inúmeros leitores pelo Brasil, acabando com a sina que a História é chata. Através de seus livros pode-se revisitar o passado sem uma linha tendenciosa. Isso não quer dizer, que os fatos narrados por ele seja a versão correta e final. Existem várias maneiras de contar (ou relatar) uma história, por isso a importância do trabalho dos historiadores, pois através de suas pesquisas (seus ensaios são todos baseados em artigos históricos, como deve ser feito) é possível narrar os fatos de uma forma mais verídica. E esse estilo literário é muito bem aceito por quem o lê. E isso, constatei no Teatro Sesiminas, na capital mineira. O público eclético era composto por pessoas de várias idades, que se perfilavam na fila uma hora antes do horário previsto para o evento.
Foto: Sempre um Papo Eu na fila, uma hora antes do evento
Emoção maior (sim, eu me arrepiei todo) quando o mediador, o escritor Carlos Marcelo, anunciou a entrada de Laurentino Gomes. Estar ali, diante de um dos maiores escritores e jornalistas do Brasil foi uma experiência única.
Com seu jeito cativante respondeu as perguntas de maneira precisa, feitas pelo mediador e público, sem em algum momento ser prolixo (comum entre a maioria dos historiadores e escritores). O bate papo agradável e informativo poderia durar horas que nenhum dos ouvintes reclamariam. Também testemunhei, assim como todo o público presente, a epopeia vivida pela professora Andrea Leite e seus alunos da Escola Estadual Antônio Belarmino Gomes, de Divinópolis que saíram de sua cidade às 14h30min e tiveram um contratempo com o ônibus quebrando durante o trajeto, além daquele previsível e conhecido congestionamento de quem chega e sai de Belo Horizonte. Chegaram quase no final do evento, que gentilmente Laurentino fez questão de prorrogar por mais trinta minutos, para alegria do público presente. E todos se mostravam felizes, incluindo professora e alunos, mesmo diante os contratempos.
Foto: Sempre um Papo Laurentino Gomes e o mediador Carlos Marcelo
E para completar a noite perfeita, Laurentino Gomes revelou que ser fã do brasileiro João Guimarães Rosa e seu livro preferido do autor era Sagarana. Lamentou que esse gênio literário não receber o Nobel de Literatura. Como muitos sabem, o escritor Guimarães Rosa, que também sou fã e estudioso de sua obra, foi escolhido por mim, para ser meu patrono na Academia Itaunense de Letras.
Eram 22h30min quando o autor, sem mostrar
qualquer desconforto ou cansaço (autografou pelos meus cálculos mais de 250
livros) perfilou ao lado dos alunos para uma foto histórica e memorável.
Foto: Sempre um Papo Laurentino Gomes e os alunos da E. E. Antonio Belarmino Gomes, de Divinópolis – MG
Quanto ao livro Escravidão, pedirei a você, meu caro leitor que o leia assim que possível, pois se trata de uma obra obrigatória a todo brasileiro. Devemos refletir e se conscientizar sobre a grande responsabilidade que carregamos de nossos antepassados, seja qual for sua etnia, ainda mais quando vivemos esses tempos obscuros, diante uma grande ameaça ao nosso futuro. Aliás, segundo Laurentino Gomes, a escravidão é uma chaga aberta na história humana e cabe a nós curar essa ferida.
Uma das grandes alegrias que tenho em minha vida é publicar novos escritores. Realmente, emociono junto com os autores e a cada livro que auxilio na publicação eu me considero um padrinho. Sim, porque livros são como filhos. E nesta brincadeira de gerar livros, a escritora Tânia Guimarães acabou publicando livros gêmeos. Isso mesmo! Há pouco mais de um mês, a autora estreava na literatura com seu livro Sabor da Vida, que teve sua edição esgotada (considero uma façanha) em uma semana. Aí, ela nos surpreende e dois meses depois, publica outro livro: Menina Solidão.
Publicar era algo difícil e caro. Hoje em dia existem pequenas editoras como a Editora Ramos, que auxilia neste processo de forma rápida, profissional e econômica. Tempos atrás, muitos escritores sonhavam (e ainda sonham) de ser publicados por uma grande editora e viver de direitos autorais. Mas, para cair nas graças de uma grande editora, você precisa ser um excelente escritor, vencer algum concurso literário de prestígio, contar com um pouco de sorte, para tentar se destacar entre os milhares de talentos por este Brasil afora. Pois bem, a Tânia Guimarães tirou o escorpião do bolso e pagou de forma independente seus livros gêmeos e assim teve seu sonho realizado. Às vezes é preciso ter atitude e isso a autora provou que tem de sobra, assim como talento. Que ela seja referência para aqueles escritores que escrevem para gavetas e que desejam um dia publicar. E a Editora Ramos está aguardando seu original.
O lançamento de seu livro, Menina Solidão, será dia 28 de setembro de 2019, no Centro comunitário em Itatiaiuçu – MG, na Praça Antônio Quirino, às 17 horas. Prestigiem!
Foto: Zona Franca
ENTREVISTA COM TÂNIA GUIMARÃES
Como nasceu sua vontade de ser escritora?
Essa vontade nasceu na
adolescência quando eu sonhava em fazer jornalismo. Lembro-me que comecei com prosa.
Na oitava série, hoje novo ano, eu já escrevia contos e surpreendi a todos
quando apareci com uma história de um jovem revoltado que se embrenhou pelo
mundo das drogas. Lembro- me até do ano, 1977, pois professor Oswaldo Diomar, depois
de corrigir escreveu um comentário dizendo que eu tinha tudo para ser uma escritora.
Porém, com o tempo vi que levava mais jeito para os poemas, pois era uma forma
de expressar todo sentimento e emoção que me incomodavam ou me faziam feliz.
Quem é Tânia Guimarães?
Uma pessoa alegre, simples,
extremamente sensível que a vida foi moldando com o sofrimento. Otimista… Sempre
vê uma luz no fundo do túnel! Uma sonhadora com uma grande vontade de transformar
o mundo no lugar onde todos possam viver com dignidade. Uma mulher brava quando
necessário ou incomodada, com o coração aberto para o amor e que cria laços com
facilidade. Mas no fundo uma menininha solitária em busca de colo…
Sabor da Vida e Menina Solidão são duas obras seguidas. Que mensagem você deseja passar para seus leitores?
Os
dois livros são poemas escritos ao longo dos anos, desde a adolescência. Em
Sabor da Vida a intenção foi realmente mostrar o sabor da vida através de
lembranças, através da minha visão que embora tenha convivido muito com
sofrimentos emocionais nunca deixou de achar a vida saborosa. Menina Solidão já
faz um retrato de uma menina solitária, mas que nunca deixou de olhar e sentir
a dor do outro. A Menina Solidão que talvez tenha crescido e se tornado uma
mulher solidão.
Quais são seus projetos literários para o futuro?
No momento estou trabalhando num
projeto que mostra minha história, de meus familiares e os lugares onde tenho
raízes. Não são poemas, são relatos que para mim estão recheados de poesia.
Pretendo publicar ano que vem. E como
estou me dedicando mais a literatura por ter me aposentado vem outro livro de
poemas por aí… Para mim escrever é tão natural quanto falar… Como falo
muito, escrevo muito.
Qual sua dica para os escritores iniciantes?
A dica que posso dar é a mesma que me norteou: gostar realmente do que faz, ter persistência e sobretudo não visar lucros… Eu vejo meu trabalho como uma missão. Recebi esse talento, de Deus e senti que teria que prestar contas dele, como diz a parábola bíblica. Esperei o momento certo e as coisas foram acontecendo. Encontrei as pessoas certas que me apoiaram e aqui cito Toni Ramos Gonçalves. Um grande escritor, batalhador que percorre esse caminho desde jovem e que, sobretudo é uma pessoa altruísta que quer ver o sucesso do outro. É um grande amigo que só tenho a agradecer, pois me convidou para caminhar ao lado dele nesse mundo mágico da literatura.
Estreia aqui no Blog do Toni Ramos Gonçalves, um espaço dedicado aos amigos das letras. E o primeiro convidado é o amigo Wagner Andrade que nasceu em Belo Horizonte, mas reside em Itaúna há muitos anos. Escritor, poeta, psicólogo e autor do livro de poemas: Reflexões e Sentidos de viver. Nossa amizade iniciou-se no ano de 1999, quando visitamos a cidade de Boa Esperança–MG para recebermos uma premiação literária num concurso nacional de contos. Eu fiquei em segundo lugar com o conto Os olhos de meu pai (publicarei em breve aqui no blog) e ele conquistou o terceiro lugar.
Uma curiosidade sobre o amigo, é que foi o Wagner Andrade que indicou o patrono geral da Academia Itaunense de Letras, o ilustre Oscar Dias Correa, que ocupou uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras. Infelizmente, o amigo Wagner recusou humildemente ser um dos membros fundadores da AILE, mas continuou participando das coletâneas (Olhares Múltiplos e Hipérboles) além dos eventos organizadas pela Editora Ramos e Grupo de Escritores Itaunenses.
Na sua primeira participação por aqui, nos apresenta uma crônica interessante e cômica sobre a nossa difícil língua portuguesa. Seja bem vindo, Wagner Andrade!
PARÔNIMOS E HOMÔNIMOS
Por Wagner Andrade
Joca nunca foi jogador e esportista
na vida, e muito menos cozinheiro, mas sempre foi de “trocar as bolas” ou
confundir “alhos com bugalhos”, como ninguém, no que se tratava de nossa língua
materna, (convenhamos, até difícil e que há momentos em que um mortal se enrola
na articulação de certos termos) principalmente envolvendo verbos com
semelhança na pronúncia e na escrita, mas bem diferentes no significado:
“Hoje acordei tão “expirado”,
que sou capaz de ir trabalhar até melhor e com bem mais entusiasmo e confiança”.
‘”Sabe, um pai de um colega meu “inspirou” hoje de manhã; também pudera,
ouvi comentarem que ele tava muito
mal do coração. Vai ser muito difícil pro meu amigo “dirigir” esse golpe. Favor, me empresta o seu carro pra eu “digerir” até a casa dele, já que o meu
tá com algum problema no freio. Preciso ir lá, pra lhe dar alguma força, que
sei que deve tá precisando”.
Expirar, inspirar, aspirar, dirigir, digerir… Algo para deixar um
mortal maluco, não acham? Mas não ficava só nisso aí.
Joca sempre foi homem de acordar cedo. Apressado e responsável como ele
só. Logo, ao se levantar, tomava rapidamente o seu café com leite diário, dava
uma rápida olhadela no jornal, enquanto “dirigia”
somente um pedaço de bolo ou pão com manteiga, e saía a “digerir” o seu velho Uno, dessa feita, com mais tranquilidade
(tinha verdadeiro pavor de correr no volante). As ruas costumeiras, pelas quais
movimentava, eram tidas como largas; ele considerava que as mesmas possuíam bom
“cumprimento”, boas de se “traficar”, de se fazer inveja até a
outras vias e logradouros mais distantes da cidade.
Ao chegar, quase que pontualmente, à empresa onde trabalhava,
estacionava o veículo, tecia agradáveis “comprimentos”
aos colegas de serviço; um ou outro lhe confidenciava sobre a real situação
financeira da firma: “O trem tá feio, logo, logo, estão pra colocar mais gente
na rua”. Joca, aparentemente, parecia demonstrar tranquilidade e não temia acerca
do seu futuro na organização. “Sei que o chefe gosta muito de mim, assim como do
meu trabalho; por isso, não me vejo na “eminência”
de perder esse emprego”. E para descontrair um pouco o ambiente: “se acontecer
o pior, qualquer coisa, arrumo um jeito de sair por aí, “trafegando” um pouco de cocaína e, quem sabe, até “heroína”; já comentaram
que esse negócio é que tá dando
lucro, uma boa bufunfa.” E ante o
verdadeiro pasmo dos amigos, passava a rir com alguma intensidade; em seguida,
procurava emendar: “sabem que tõ só
brincando, passo longe desse negócio todo aí, não é pra mim não, uma verdadeira
porcaria social. Mas, falando sério, se acontecer do chefe me colocar na rua,
sei que tenho chance de conseguir algo em outra empresa, e talvez até melhor,
pois ele é uma pessoa muito conhecida no mercado e até “iminente”; uma carta de recomendação dele vale ouro”.
No entanto, ao voltar para casa, Joca parecia não demonstrar essa mesma
despreocupação. Pensava que se tal coisa de fato ocorresse, para ele, no
momento, seria o mesmo que lhe aplicar uma pena, ou lhe “infringir” um tremendo castigo. Que tipo de “previdência” deveria tomar de antemão? Possuía família, possuía
filhos pequenos que ainda dependiam diretamente dos seus proventos. Gostava do
que fazia, atuava no ramo industrial de peças para veículos automotivos, já há alguns
anos; o pessoal na firma lhe tinha apreço e consideração, embora achasse muito
hilário o seu jeito de pronunciar as palavras; aquela “mania linguística” ou o
que fosse, virava até motivo de escárnio entre alguns. Considerava até
satisfatório o próprio desempenho, o esforço valia a pena e chegava a se sentir
até “absolvido” pelos serviços. Mas,
(quem sabe?) no futuro, ainda teria o próprio negócio, “expirava” a uma realização e crescimento pessoal e profissional
nesse sentido, vindo a se tornar o seu próprio patrão, um sonho almejado pela frente,
caso um dia, por um motivo ou outro, não fizesse mais parte da empresa. Possuía
somente pouco mais de vinte e cinco anos, portanto, muita coisa ainda para
acontecer. Mas enquanto ainda dependesse do salário da firma, precisava se manter
de bom humor e otimista, no “comprimento”
de suas obrigações e responsabilidades como empregado, não podia jamais
atordoar-se ou “infligir-se”, emocionalmente;
tinha de manter a cabeça em pé, firme e “imersa”
no alto.
E passava a realizar, mentalmente, a “discrição”
de alguns “paços” importantes que teria
de dar na vida, a fim de atingir seu maior intento.
Mas sentado à mesa, na hora sagrada do jantar, evitava tocar no assunto
ou em qualquer coisa que aspirasse a trabalho ou à firma, preferindo aproveitar
o momento somente para ”curtir” a esposa e as crianças. Como a fome o dominava
em demasia, depois de mais um dia inteiro no batente, muitas vezes, “soado” tanto no rosto, como nos braços, “ingeria”
(aí, sim, está certa a colocação) com sofreguidão, tudo o que lhe vinha ao
prato, chegando a “suar” ou emitir um
enorme ruído na deglutição dos alimentos. Comprazia-se, em dado instante, a
observar os filhos. Ficava admirado com a criança mais nova; somente dois anos;
mas esperta como ela só. Com a pouquíssima idade, já falava tudo, comia de tudo
o que lhe punha a frente, e a danadinha, à sua maneira, ainda pedia mais
comida. Os outros filhos também se alimentavam bem; sempre com os “incipientes” cheios e, “com a graça do
Senhor”, cresciam com “prefeita” saúde,
era o que mais importava. O mais velho parecia ter puxado Joca no gosto por
automóveis que, para a alegria do genitor, se mostrava “recipiente”. Bastava o garoto presenciar qualquer carro passando à
sua frente, já falava a cor e a marca, corretamente, dificilmente o danado se
equivocava. No entanto, ocorria de nenhum dos filhos repetir os mesmos “vícios
de linguagem” do pai, que até para a mulher, serviam como motivo de mofa sadia.
Mas não se enganem em pensar que
era somente na fala, nas articulações, que tal hábito se fazia notório; também
as boas “trocas de bolas” estavam presentes no ato de escrever, como se podia
perceber numa mensagem postada a um velho conhecido, referente a um valor
devido de um serviço que este havia lhe prestado:
“Pode deixar, meu amigo, que não esqueci de lhe mandar o “xeque”, é que eu ainda não tenho todo o
dinheiro na minha conta, nesse mês, e se ele for enviado, fica sem fundo. Mas
fica tranquilo, que até o “cesto” dia
desse mês, ele segue pra você, normalmente, sem problema. A verdade é que o “concerto” do meu carro me custou o
“olho da cara” e “absolveu” quase que
todo o dinheiro disponível. Você sabe, a situação tá difícil pra dedéu, com o desemprego em alta,
dificultando pra todo mundo ou quase todos. Felizmente, ainda conservo o meu
emprego, com a graça do bom Senhor, mas mesmo assim, nem sempre dá pra pagar as
contas devidas, com tranquilidade. E olha que a “patroa”, nos últimos tempos,
tem até “cozido” pra fora, a fim de
ajudar, pelo menos um pouco, nas despesas domésticas. E mesmo assim, cê sabe muito bem, já que a sua mulher
também é costureira, ela tem de ter bom material disponível como carretéis de
linha de várias cores, tesouras, agulhas, feiches,
pano e tudo mais que for necessário”.
E como se voltasse agora para si próprio, para os seus próprios botões: “A Almira é uma mulher e tanto; eu posso dizer que jamais teria outra como ela na minha vida. O “lasso” que uniu nós dois, desde o dia em que subimos ao altar na igreja, é bem forte, e pra sempre. Quando eu tiver a chance de ter o meu próprio negócio arranjado e bem desenvolvido, quem sabe eu ainda venha a me enriquecer nisso, vou dar pra ela uma vida de princesa ou de rainha, dessas mesmo de “passo” imperial, com tudo o que ela tem direito, até com direito a “conserto” de orquestra, à porta, de vez em quando. Mas até lá, eu me contento em convidar ela para irmos, nessa noite a uma “seção” de cinema, já que tá passando um filme muito bom e imperdível.”
Universo de parônimos e homônimos da nossa língua, a endoidecer qualquer pobre mortal, não é mesmo?
A
fazenda da família estava finalmente à venda. Fazia três anos que papai havia
morrido e, desde o enterro, era a primeira vez que eu voltava lá. Éramos quatro
os herdeiros e eu era o primogênito. Sabia que nenhum de nós poderia morar
naquele lugar. Após a morte de papai, houve duas tentativas de invasão dos sem
terra e como todos vivessem longe demais para cuidar da propriedade, decidimos
pela venda. Na festa de formatura do ensino médio, de uma de minhas sobrinhas, a
família finalmente conseguiu se reunir e então percebi um clima de palavras não
ditas. Ao final da festa, chamei-os num local reservado.
“Na
próxima semana, estarei de férias”, avisei. “Vou a fazenda resolver a questão
da venda.”
Ninguém
fez nenhum comentário, mesmo bêbados. Sempre tive o maior respeito por parte
deles. Eu era jornalista de um conceituado jornal paulista e meu primeiro
romance acabara de ser o vencedor do maior prêmio da literatura nacional.
Com
um peso no coração, decidi ver a fazenda pela última vez, antes de assinar os
documentos. Depois de duas gerações em poder da família, minhas árvores, meu
riacho, meus campos passariam às mãos de estranhos. Sentia-me uma criança
retornando ao lar, após longa ausência, cheio de ansiedade.
A
casa da fazenda era a mesma de outrora. Nos fundos, o curral, onde,
antigamente, pela manhã, se tirava o leite das vacas. Depois das tentativas de
invasão, contratamos um caseiro para manter a área externa limpa e as máquinas
restantes funcionando. A casa era sempre mantida fechada.
Desci
do carro debaixo de um sol inclemente. O calor e o mormaço daquele lugar
continuava o mesmo. Tive a sensação de que papai ia sair de dentro da casa e me
receber sorridente na varanda. Lembrei-me da última visita, alguns meses antes
de seu falecimento. Tinha os cabelos, a barba por fazer e as sobrancelhas
brancas, da mesma cor da camisa, contrastando com a pele queimada pelo sol.
Tinha as mãos trêmulas, magras e ásperas, mas mantinha o aperto forte.
Sentado
no velho banco de mogno na varanda, escutava o passado. Papai adorava aquele
lugar. Quando criança buscava eu e meus irmãos, para passarmos o fim de semana
na fazenda. “Menino precisa de espaço para crescer”, falava para mamãe, quando
nos buscava no apartamento. Ficava sentado ali fumando seu cigarro de palha,
observando a gente brincar. Nas noites
de verão, pegávamos vaga-lumes e os colocávamos em potes de vidro. Era o
máximo. Era ali, na varanda, sempre ao pôr do sol, que papai ia contando as
histórias das pessoas que viveram ali. Ele sabia das tristezas e alegrias
plantadas em cada pedacinho de chão. “Seus avós se casaram quando ambos tinham
dezesseis anos, às vésperas do Natal. Saíram da igreja numa carruagem branca,
novinha, e vieram viver aqui. Tiveram oito filhos. Trabalharam arduamente durante
anos, plantando verduras e criando vacas leiteiras e aos poucos, foram
comprando as terras vizinhas.”
Levantei-me
e me adentrei na casa. No interior mal iluminado, deparei com a foto antiga de
casamento de meus avós, numa moldura oval e escura, pendurada na parede. Reparei
que eu tinha certa semelhança com meu avô. Restavam poucos móveis, todos
empoeirados. Olhei demoradamente todos os cômodos. Pairava no ar um forte odor de
mofo e poeira. Papai sempre viveu na fazenda, mesmo depois de mudarmos para
cidade, para estudar. Ele vivia suas ignorâncias, mas era um homem bom e muito
direito com os seus compromissos. Depois que ingressamos na faculdade, mamãe
veio morar novamente com ele. Sua rotina era vagar pela fazenda orientando os
poucos trabalhadores que mantinha. Ora cuidava da horta, ora alimentava os
porcos, mas seu lugar favorito era o pomar, onde passava horas debaixo das velhas
mangueiras. Mesmo depois da morte mamãe, que uma noite foi dormir e não acordou
mais, ele continuou morando sozinho. Nunca mais foi o mesmo. Foi vendendo as
vacas, acabando com as plantações, até a fazenda ficar deserta. Às vezes, tinha
a companhia de seu amigo de longa data, o Onofre, que o auxiliava em algumas
tarefas. Os filhos raramente apareciam. Eu, por viajar muito, era o que mais o
visitava, quando estava numa cidade próxima. Meus filhos e esposa nunca vinham.
Alegavam que o sinal de internet não era bom.
No
galpão que servia de depósito de ferramentas, encontrei o velho fusca azul, ano
1965. Era o xodó de papai e fazia parte da família. Quando nasci, ele já estava
lá. As chaves do velho fusca pendiam do
mesmo prego. Peguei-as, dei a partida e após a quarta tentativa o motor funcionou.
Era como se tivesse entrado numa máquina do tempo. Outro amor que tínhamos em
comum era “correr as estradas,” como papai costumava dizer. Quando o sol ficava
muito quente, saíamos no fusca e pegávamos as estradas de cascalho. Eu e meus
irmãos íamos no banco traseiro, na maior folia, rumo ao povoado, beber
refrigerante geladinho no bar do Jovino, nadar nas cachoeiras, pescar no rio ou
pegar frutas nas fazendas de amigos.
Lembrei-me
do passeio que fizemos juntos durante minha última visita. Papai e eu saímos da
fazenda e fomos dar uma volta. Ele queria fazer uma visita ao túmulo de mamãe. Quantas
vezes, durante anos, eu e papai fomos lá cuidar dos túmulos. Na maioria das
vezes, somente a presença do outro era suficiente. Palavras não eram
necessárias; bastava a satisfação de ouvir o estalar do cascalho sob os pneus. Olhando
para o céu, papai viu que nuvens se concentravam a oeste, e o vento alterando
um pouco a direção. “Vem temporal aí”, previu. Eu concordei com um sorriso,
quando dois grossos pingos de chuva bateram no para-brisa. Não demorou muito e
desabou um temporal. Decidimos parar debaixo de um velho galpão em ruínas. E
papai veio com mais histórias.
“Se
você for naquela direção”, disse papai apontando na direção de uma plantação.
“Atravessando aquele milharal, você irá encontrar um muro erguido pelos
escravos e as ruínas de uma velha igreja queimada e, pouco mais adiante, uma
árvore centenária com uma inscrição entalhada no tronco com as iniciais minha e
de sua mãe. Brincávamos sempre de pique esconde naquele lugar. Foi lá que demos
o nosso primeiro beijo.”
Com
a chuva martelando o telhado de zinco, papai respirando fundo, me disse: “Levaram
o velho Onofre para um asilo. Os vizinhos o encontraram vagando de pijama pela
estrada, numa noite dessas. Ficou fraco das ideias. Bem que percebi que ele
andava esquecendo-se das coisas. Vou ter que fazer todo serviço da fazenda
sozinho.” Simplesmente, fiquei sem palavras naquele momento. “Cada homem tem
sua sina”, concluiu olhando um arco íris no horizonte, enquanto a chuva diminuía.
Passada
a chuva, já no cemitério, observava a distância papai resmungando, enquanto
arrancava o mato ao redor do túmulo de mamãe. “Ainda não. Ainda não chegou a
minha vez. Mas não vai demorar.” E sempre repetia a mesma frase quando
voltávamos para fazenda. “Sabe filho, essa boa gente pode estar embaixo da
terra, mas enquanto nos lembrarmos de suas histórias, de certo modo eles
estarão conosco.”
Assim
cheio de lembranças de um passado já distante, conferi o nível do combustível
no fusca, manobrei e me afastei da fazenda. Automaticamente, tomei o caminho do
povoado. Só que não havia quase mais nada por lá. Parei diante do bar do Jovino,
estava fechada com tábuas e com uma placa de anúncio de venda. Vi alguns velhos
vigiando pelas janelas e outros sentados nos bancos da pequena pracinha, sem reconhecer
nenhum deles. Nem tive coragem de parar e me informar sobre o destino de velhos
conhecidos.
Quando
por fim saí dali, sabia onde iria em seguida: o cemitério, um pouco adiante. Peguei
um caminho estreito, guiando fusca aos solavancos por uma trilha quase coberta
pela vegetação. Chegando lá, caminhei sem pressa sobre o chão poeirento e cheio
de folhas secas. Era como se não quisesse chegar. No túmulo de meus pais, as
plantas no vaso estavam esturricadas. Tracei então com os dedos a data gravada
na placa de metal com data de nascimento e morte. Não resisti e chorei a
saudade por vários minutos.
O
enterro de papai teve de ser rápido. Encontraram-no morto no pomar da fazenda.
Um dos amigos notou sua ausência na noite do truco, realizada todas as segundas-feiras
no bar do Jovino. Ele nunca faltava. Disseram que havia três dias que tinha
falecido.
“Sou um homem de pouca leitura, mas sei que
você tem muito talento”, lembrei-me de suas palavras ao meu ouvido, enquanto me
abraçava na nossa última despedida. “Continue escrevendo, meu filho.”
E fiquei algum tempo ali parado, em silêncio, me recuperando, afagado pela brisa, enquanto o sol descia no horizonte. Então, peguei o celular, liguei para minha mulher e falei decidido.
“Querida, eu sei o que vou fazer com aquele dinheiro que recebi do prêmio literário.”
ANTE A FORÇA DE UMA VIVÊNCIA
Analise crítica de Wagner Andrade, poeta.
Nem sempre é fácil
discernir sobre lembranças por meio da arte da escrita. Ainda mais a envolver
pessoas tão queridas ou situações que fazem parte do nosso passado, das nossas
vivências. A capacidade de penetrarmos em alguma esfera de vida é como se nos permitíssemos
guiar por uma sensível máquina do tempo, em que possamos explorar os caminhos
de outrora, não somente atravessados por ilusões, como também por incontáveis desilusões.
Mas a lembrança do amor direcionada àqueles que, de alguma maneira, deixaram
gravados na existência seus sinais e marcas, vem a compensar todo o esforço
empregado no presente, toda a saudade do passado que insiste em mexer com os
sentimentos pessoais. A narrativa do conto em primeira pessoa cria condições
para que o próprio protagonista vivencie de maneira lúcida, profunda e
reflexiva, os eventos e acontecimentos que marcaram a sua existência de forma
saudosa e significativa, ao mesmo tempo que busca prender a atenção do leitor e
aproximá-lo ainda mais do drama vivenciado pelo personagem, numa tentativa de
mexer igualmente com os seus brios e sentimentos. de tocar nas suas emoções. E
é interessante como tudo isso pode se tornar viável e explícito, mesmo numa
narrativa literária curta.
O conto Selma ficou em 1º lugar no 1º Prêmio FEBACLA 2018. Trata-se da história de amor impossível entre um homem solitário e uma mulher comprometida. O conto recebeu impressões positivas, o que me levou a considerar a hipótese de, quem sabe um dia, desdobrá-la e torná-la maior, talvez uma novela ou romance. Um grande abraço e boa leitura.
Foto: Pexels
Selma
Por Toni Ramos Gonçalves
Selma está lá dentro agora, no quarto,
e eu, indeciso, não sei se saio, para o sol escaldante, ou se permaneço aqui,
na sala. Estremeço só em pensar que ela me ache importuno. Não quero ser
importuno, não quero ser imprudente. Juninho, garoto sapeca, na energia
inesgotável de seus cinco anos, está querendo sair e demora timidamente à
janela, contemplando os arranha-céus. Olha para mim, de momento a momento e
finjo não perceber. É um olhar súplice, o mesmo olhar inocente, incauto e meigo
de Selma. Sinto uma angústia. Ainda há pouco eu me distraía, com um livro.
Fingia ler, Juninho veio, venceu a timidez, pousou a mão no meu joelho. Um
gesto familiar e confiado que eu não merecia e por isso levantei, toquei de
leve o seu ombro. Ele quer ir lá para baixo, dar um passeio – que importa o
caos urbano da capital! – mas, aí está minha utilidade e valia: a segurança. As
constantes viagens de negócios de seu marido me trouxeram a esta situação, junto
com a promessa de um cargo na empresa.
Selma veio lá de dentro, passou pela
sala cantarolando, entrou na cozinha, conversa com a faxineira. É espantoso que
ela não tenha ainda percebido qualquer coisa. Sempre fui um livro aberto, uma
sensibilidade à flor da pele, nunca soube dissimular. Preciso ficar atento, não
quero dar nenhum aborrecimento, não quero ser um elemento perturbador.
Meu Deus, lá vem ela novamente! Senta
na poltrona defronte – o celular na mão -, sorri para mim. A saia escura, no
regaço, faz uma ondulação suave. Meu coração bate descompassado.
Fico olhando para Selma. Às vezes me detenho em certos detalhes. Agora é a vez da boca. Lábios carnudos, de firme desenho. Já quis beijá-la muitas vezes e não tive coragem.
Selma me olha, eu sustento o seu olhar.
É impossível que ela não saiba, não perceba, não sinta. Um arrepio me percorre
o corpo, depois um ardor, e uma onda gelada, um tremor, um calafrio. Vou dizer
“eu te amo!”. Juninho aparece, vem correndo da copa. Levo algum tempo para me
refazer.
“Vocês foram ao parque ontem?”, pergunta
ela, voltando os olhos para o celular.
Não pude responder logo, perturbado.
Levantei e abri a porta. E já do lado de fora, apertando o botão do elevador:
“Vamos agora.”
Juninho cruza a soleira da porta,
alvoroçado, e pergunta, oscilando nas perninhas:
“Vamos mesmo?!”
Não fiz nenhum esforço para falar,
apenas confirmei com a cabeça.
“Não voltem muito tarde para o jantar”, diz Selma, lá dentro.
Juninho cerra a porta. Saímos. E, depois, enquanto andávamos lá fora, a angústia sufocou uma vez mais. Pensava no regaço, na saia escura de Selma. Fiquei enredado numa situação de que não podia me libertar. Não conseguia esquecer aquela visão. Selma me atraiu sempre, apaixonei no primeiro instante em que a vi – como deixar de amá-la? Surgiu no meu caminho, encheu minha solidão. Podia fazer uma loucura a qualquer momento. Tinha fome e sede, queria, desejava, amava a mulher de meu irmão.
O asilo não
passava de uma casa recém-reformada cercada por uma varanda. O chão era de
cimento queimado, encerado de vermelho. Tudo era muito simples. Havia uns dez
velhos sentados espalhados pela varanda e pelo jardim.
Uma velha senhora,
sentada num sofá com o estofamento desbotado, foi sacudida por um cochilo sem
sonhos. Voltou a fixar seus olhos azuis no velho sentado diante dela. Não foi
por acaso que se sentou ali. Ele havia chegado à instituição há pouco mais de
uma semana. Durante aqueles dias, relanceava brevemente em sua direção, na esperança
de que a consciência estivesse lhe pregando uma peça. Não é ele. Claro que não é. Era um senhor esguio, a cabeça quase calva
com poucos cabelos grisalhos restantes, a pele flácida em torno das bochechas, sobre
os olhos castanhos, bolsas manchadas de rosa em suas pálpebras. Vivia calado,
introspectivo. Às vezes, seus olhares se cruzavam e ela sentia o olhar dele
passar flutuando, sem se deter em sua presença. Fingindo que não a via? Na
primeira semana ele não recebeu nenhuma visita, nem de parente ou amigo. Simplesmente, foi deixado ali.
Uma cuidadora
de idosos, muito magra, branca e alta, aproximou-se dela perguntando se estava
tudo bem. Ela apenas sorriu e, fechando os olhos novamente, deixou a sua cabeça
vazar e se viu novamente no passado. Era um sábado quente, de poucas nuvens no
céu. Naquele fim de tarde, ia a pé para o local onde fazia ponto. Na época, a
zona boêmia daquela pequena cidade mineira iniciava na parte íngreme da Rua Bandeirante
Desbravador, indo até o topo do morro, onde reinava uma igrejinha centenária. Do
seu lado esquerdo, um aglomerado de casas, juntamente com o bar Cantinho do céu, onde algumas
prostitutas faziam ponto.
Naquele dia, ela
se destacava com seus vários metros de cabelo louro. Usava um vestido vermelho,
que modelava seu corpo pequeno e revelando todas suas belas curvas. Na mesma cor
do vestido, as unhas, sapatos e a bolsinha.
“Tá podendo,
hein Natasha!”, gritou a bicha na porta do bar do Argentino, ao vê-la passar. “Assim você me confunde, my darling.”
“Hoje vai ser
diferente, môna”, disse, caprichando no requebrado, morro acima.
No bar Cantinho do céu, aguardava pelos clientes, sentada num banquinho alto, as pernas grossas cruzadas. Uma sensação de nostalgia flutuava junto com o odor da fumaça do cigarro que entrelaçava seus dedos. Observava um homem de longos cabelos grisalhos, bebendo cachaça e dando risadas, desfrutando os carinhos, abraços e beijos extensos com duas garotas, uma delas sentada no seu colo. Nenhuma era bonita. A impaciência fez com que Natasha se levantasse, fosse para o meio do salão e começasse a dançar sozinha, ao som de outra música de Nelson Ned*, na radiola de fichas:
Eu te dei meu amor
Por um dia
E depois sem querer te perdi
Não pensei que o amor existia
E também choraria por ti
Mas tudo passa tudo passará
E nada fica
Nada ficará
Só se encontra a felicidade
Quando se entrega o coração
Durante a
música, enquanto cantava com voz aguda e descontrolada, um homem de quase dois
metros de altura, um corpo de touro, entrou no recinto, aparentando não ter
noção de onde estava. Sentou-se a uma mesa num canto. Ela parou de bailar e
cantar e caminhou até ele, com um sorriso nos lábios vermelhos.
“Quer uma
companhia, querido?”, perguntou.
Ele respondeu
que sim e ela sentou ao seu lado.
“O que você
quer beber?”, perguntou novamente, reparando aquele homem com cabelo crespo,
rente, parecido com um feltro na cabeça ampla e achatada. A barba cerrada, o
queixo quadrado, os dedos grossos, calado e um pouco risonho.
“Cerveja e um
conhaque”, respondeu, observando o ambiente de luxúria e perdição sobre a luz
vermelha.
Natasha acenou
para o dono do bar, fez o pedido acrescido de uma dose de rum para ela. A noite
avançava e depois de muitas doses de bebidas, o homem, até o momento acanhado,
começou a se assanhar. Botou a mão quente grossa na coxa dela. Afastou a coxa
direita da coxa esquerda e escorregou a mão. Ela cochichou algo no seu ouvido e
se levantaram em seguida para os fundos do bar. Atravessaram uma cortina de
tiras de plástico coloridas que dava acesso a um corredor, onde ficavam três
quartos. Entraram no quarto do meio. Lá dentro, uma cama de casal e uma pequena
penteadeira.
Tiraram a roupa.
Ela ficou deitada na cama, viu a tatuagem no peito dele. O homem custou a
encaixar a camisinha e se colocou entre as pernas dela. Ela sentiu todos os
exageros de cada parte daquele homem e gostou. O prazer e a vibração dos corpos,
ora numa posição, ora noutra, de forma frenética, terminaram entre urros e
gemidos dos corpos suados sobre a cama.
Ele retirou o
preservativo e jogou no cesto de lixo, como se nada de anormal estivesse
acontecido. Vestiu-se, deixando sobre o criado mudo o dinheiro, mas antes de sair,
segurou-a atrás do pescoço e a beijou. Depois se olharam olhos nos olhos. Seus
olhos eram castanhos. Ela sorriu. Ele prometeu que voltaria, mas não voltou. Os
dias se transformaram em semanas e as semanas em meses. Natasha alternou os
pontos, ora no bar do Cecil, ora no
bar da Janet… Imaginou que aquele
homem fosse fruto de sua imaginação. Aliás, prostitutas não se apaixonam nunca,
jamais. Desistiu de procurá-lo; nove meses depois, a barriga crescida, as
vésperas do nascimento de sua filha.
A cuidadora de idosos retornou, e a velha se
assustou, ao vê-la cobrindo-a com um cobertor.
“O que foi dona
Vera? A senhora está querendo alguma coisa? Estou achando você inquieta.”
A senhora olhou
para o velho e pediu que a cuidadora se aproximasse.
“Sabe dizer se
aquele senhor tem alguma tatuagem de um coração flechado no peito?”, cochichou
em seu ouvido.
A enfermeira
voltou o olhar para o velho, sempre em silêncio, a encarar as árvores
centenárias na frente do casarão.
“Ah, o seu Antônio?
Ele tem sim”, confirmou.
“Além da
velhice, o que ele tem? Quase não fala.”
“Ele era
pedreiro e caiu do andaime, quando ainda era jovem. Bateu a cabeça e por sorte
não morreu. Demorou a se recuperar, mas nunca mais foi o mesmo. A memória dele
não é muito boa. Foi isso que informaram, ao deixá-lo aqui. A pessoa que
cuidava dele faleceu, e foram obrigados a deixá-lo aqui.”
A velha senhora ainda absorvendo a informação, viu a cuidadora se afastar. Levantou-se, deu dois passos na direção dele, segurou seus ombros e, olhando diretamente para ele, lhe deu dois beijos no rosto. “Obrigado por voltar”, disse num sussurro. O velho a olhou com indiferença. Com os olhos marejados, se afastou, a curtos passos, dirigindo-se ao seu quarto. No fundo do guarda-roupa, buscou uma mala e, de dentro dela, uma bolsinha vermelha. Retirou um pequeno espelho e o batom vermelho escuro. Pintou com a mão trêmula a boca enrugada.
Uma onda de euforia invadiu seu decadente corpo. Sorriu para seu reflexo no espelho e se viu ainda jovem, a bela Natasha. No fim de semana, faria uma surpresa para a filha, quando viessem visitá-la com seus netos. Era a hora de conhecer o seu pai.
* Música Tudo passara composta por Pinto D’Avila / Ned Nelson
Comecei a trabalhar com onze
anos. Foi quando descobri que era pobre, muito pobre, quase um miserável.
Decidi que era preciso reforçar o angu com couve e auxiliar nas despesas do
barraco. Morava no morro do Rosário, lugar barra pesada. Os filhos dos vizinhos
na maioria eram engraxates que faziam ponto no bancão na Praça da Matriz de Santana,
em Itaúna. Era um bando de garotos infelizes e revoltados como eu. Além de
engraxates cometiam pequenos delitos nas ruas e eram temidos pelos meninos mais
fracos. Eu era um dos medrosos, depois de receber muita pancada na rua. Minha
mãe, sempre uma grande protetora proibiu que eu os tivesse como companhias.
A primeira opção para o trabalho que surgiu, então, foi vender picolé. Não era um bom vendedor (e acho que ainda não sou até hoje). A comissão das vendas dos picolés era muito pouco e no final mal dava para cobrir os picolés que eu consumia. Eu era o vendedor e maior comprador. Aliás, era uma criança sujeito a desejos e vontades, e criança adora picolé. Passei então a catar sucata, revirando lixão e quintais abandonados. Era muito lixo para nada. Nunca conseguia juntar o suficiente. Lembro uma vez que enchi umas latas de óleo de nove litros com pedras, para aumentar o peso delas. Carreguei por quinhentos metros oito sacos de lata (com pedra) até a casa de um comprador. Lógico, que ele descobriu “meu golpe”. Quando terminei o último saco, ele começou a abrir as latas e retirar as pedras. E eram muitas. Todo aquele esforço, em vão. Fiquei na maior vergonha. Não houve esculacho por parte dele. No fim ele pesou as latas. Deu uma ninharia de dinheiro. Mas, ele se voltou para mim e disse que ficaria com as pedras, pois precisaria delas para fazer um alicerce de um puxadinho no barraco e me deu uma boa gorjeta pelo serviço extra. Pediu que na próxima eu trouxesse somente as latas. Nunca mais voltei lá.
Aos doze anos parti para capina
de lote. Como eu ainda estudava num período do dia levava dois dias para finalizar
o serviço. O primeiro lote tinha mais pedra do que mato. A enxada, que era
emprestada de um vizinho, lascava cada faísca e eu admirava aquela experiência.
Parecia um troglodita ao descobrir o fogo. Um bobo alegre. Minha mão ficou toda
detonada, cheia de calos e para terminar no outro dia, tive que enrolar uns
panos na mão para finalizar. Doía com força. A dona da casa nos dois dias que
ali fiquei não deixou que eu fosse embora sem um almoço. Um amor de senhora,
que não lembro mais seu nome. Tinha carne de primeira e um sabor diferente da
comida de minha mãe. Muito deliciosa. Quando recebi os trinta cruzeiros pelo
serviço, sai na maior alegria para a rua. Enfim, poderia comprar meu time
favorito de futebol de botão, além de doar o restante do dinheiro para minha
mãe. Foi assim durante um ano, capinando (desbravando) quintais. São muitas as
histórias, que um dia prometo contar.
Aos catorze anos pedi a minha mãe para transferir meu curso do ensino fundamental para o horário noturno, pois assim poderia trabalhar durante todo o dia. Comecei a trabalhar como servente de pedreiro do senhor João Grilo (alguém se lembra dele?), ele já com uma idade bem avançada. Era um excelente profissional. Eu era um garoto magérrimo, desnutrido e mal conseguia carregar meia lata de concreto. Ele ficava bravo comigo. Eu era muito fraco. Com o tempo o esforço e má alimentação começaram a afetar minha concentração na escola. Estava sempre cansado. Um dia, já estressado e irritado com a exigência absurda do pedreiro para que eu sempre trouxesse a lata cheia de concreto, fui almoçar e não retornei mais. Continuei a conversar com ele por muitos anos. Era amigo da família e minha mãe explicou para ele os motivos de minha desistência. Trabalhar sem prejudicar os estudos.
Duas semanas depois, já pensando em voltar para capina, consegui um emprego como auxiliar de funilaria. Fui o último discípulo do mestre funileiro Afonso Franco, com quem aprendi os macetes da profissão e arte em manusear chapas. Ele era profissional autodidata, mas excelente nos seus trabalhos. A medida que os anos passavam aprimorei meus conhecimentos em caldeiraria e neste mês de julho de 2019, completo trinta e quatro anos na profissão. Tenho um orgulho imenso de ter sido seu aprendiz, pois graças a esse aprendizado, consegui sustentar minha família por tanto tempo.
Iniciar no trabalho ainda criança só me beneficiou. A necessidade de buscar algo melhor para minha vida me levou ao trabalho. Afastou-me das ruas, da vadiagem e das más companhias. Sempre tive disposição para qualquer serviço honesto. Ainda sobrava tempo para brincar, jogar as peladinhas nos campos de terra, ler meus quadrinhos e livros, além de estudar. Durante a vida busquei em duas vezes outra profissão, mas sem sucesso. Meu espirito rebelde não deixou que eu mantivesse uma boa relação com patrões, e há muitos anos sou um profissional liberal. Meus filhos sempre que possível, me ajudavam no trabalho, quando eu precisava. Via em seus olhos que estavam felizes em me ajudar e mais ainda quando eu os compensava pelo trabalho. Hoje vivemos outros tempos. Falar de trabalho para criança e adolescente é cutucar um vespeiro. É polêmica, na certa. Em minha opinião, não acredito que o trabalho infantil seja prejudicial. Lógico, que não vamos colocar uma criança de seis anos cortando cana, pois, seria um absurdo. E nem vou citar o trabalho escravo seja com crianças, jovens e adultos. Isso é inadmissível. O governo precisa sim criar projetos que concilie trabalho e escola a partir de certa idade (vou sugerir doze anos para um curso técnico), gratuito, de qualidade, uma forma de afastar os adolescentes das drogas e criminalidade alem de implantar a cultura do trabalho. Funcionou comigo e com meus filhos e acredito que possa funcionar com outros.
“Por mais humilde que seja, um bom trabalho inspira uma sensação de vitória.” Jack Kemp.
A fila para o caixa aumentava a cada segundo. Era
feriado prolongado e o supermercado estava lotado. A atendente de caixa tinha o
cabelo preso num coque e o rosto inchado de quem não tinha uma noite de sono
decente havia meses. Seus olhos eram um pouco mais abertos de que uma asiática
e sua pele tinha um profundo e belo bronzeado. No crachá pendurado no uniforme,
o seu nome: Marcela.
“Bom dia, senhora! Tem cadastro no Méliuz[1]?”, ela perguntou forçando um sorriso.
A senhora, cabelos recém-pintados, unhas feitas,
sorridente respondeu que sim. Marcela estendeu a maquininha para ela e com
certa dificuldade digitou os números do seu telefone.
As compras foram passadas no leitor de códigos de
barras, uma a uma, ao som do bip de leitura. O estabelecimento, cuja entrada e
saída eram próximas à via de trânsito deixava o
ambiente enlouquecedor, com toda aquela gente, todos aqueles barulhos.
“Cento e oitenta e dois reais e quarenta
centavos”, informou o valor total ao passar todos os produtos. Marcela lembrou que aquele valor adicionado
de dez reais daria para pagar a sua conta de luz atrasada há dois meses e
sujeita ao corte iminente.
A velha retirou o dinheiro da bolsa e buscou as
moedas na bolsinha, sobre os olhares furiosos dos outros clientes na fila. A calma
fria daquela senhora trazia a lembrança de sua mãe. Há seis meses tudo mudara, quando
a mãe sofrera um derrame, paralisando o lado esquerdo do corpo. Agora para
trabalhar, sem parentes na cidade, contava com a boa vontade de amigos e
vizinhos para cuidar dela. Pagamento efetuado, Marcela solicitou ao embalador que
a auxiliasse com as compras até o estacionamento.
Um sorriso sem graça vincou seus lábios, quando se deu conta do novo cliente. Um homem de meia idade, a careca brilhando em meio ao cabelo ralo, a testa imensa. Há pouco mais de cinco dias ela o atendeu na porta de seu apartamento com a notificação da ação de despejo. Ali, no supermercado, o atendeu de forma automática, sem muito contato visual, na dúvida se ele a reconhecera.
“Eu avisei
na imobiliária o motivo do atraso e que em breve eu pagaria”, lembrou-se de
sua indignação ao assinar a intimação. “Povo
mais sem coração. Queria ver se fossem eles no meu lugar”.
A doença da mãe consumiu todas as economias, que
já era pouco, e a demora do pagamento pelo INSS (sim, a mãe ainda trabalhava
quando adoeceu), atrasou tudo, até suas vidas. A vontade era esfregar aquela
intimação na cara do oficial de justiça, do servidor público ou responsável por
toda aquela desgraça.
Foi rápido o atendimento, pois se tratava de uma
compra de poucos produtos, todos de ótima qualidade.
“Noventa e dois reais e vinte centavos”, disse com certa raiva na voz.
“Crédito, por favor,” informou o homem inserindo
o cartão na maquininha.
Mesmo sabendo que ele era apenas mais um cumprindo seu dever no trabalho, sentiu-se aliviada quando ele se retirou, após assinar o recibo de compra.
“Oi, tudo bem?”, cumprimentou o próximo cliente, um jovem de pele morena, densa cabeleira preta, todo sorridente ao colocar as mercadorias no balcão.
Marcela o fitou. Os olhos grandes, expressivos, claros e úmidos. Seu corpo pairava delicadamente o último limite da infância e estava quase desenvolvido de todo.
“Não estou vendo você na faculdade”, continuou. “Já
formou?”
“Ah, não”, disse ao reconhecê-lo. Seu modo como
apertava os olhos ao falar era simpático. “Tive que trancar a matrícula esse
semestre”. Lembrou-se de algumas vezes quando toparam pelos corredores da faculdade
de direito e no bar em frente à universidade.
“Minha mãe adoeceu e exige cuidados constantes. Mas, devo voltar logo”, mentiu para si mesmo, enquanto passava as mercadorias.
O rapaz acrescentou algumas camisinhas e um
chocolate a sua compra.
“Sessenta e nove reais”.
Ele pagou no cartão de débito desejando melhoras para
sua mãe e esperançoso por sua volta a faculdade.
O outro cliente parecia um playboy de asilo. Cabelo pintado, óculos de armação grossa. No rosto dele, um sorriso meio convencido de um cara tranquilo. Feio como ele só. As mercadorias, no carrinho lotado. Então veio a lembrança de seu vizinho Renan, enquanto passava as mercadorias. Era um homem, com seus quarenta e nove anos, cabelos grisalhos e desgrenhados, a barba por fazer, em boa forma física, mas começando a ficar com a barriga meio flácida. Viúvo há dois anos, vinha sendo seu grande amigo nos últimos meses, sempre atencioso, mostrando interesse em ajudá-la com os cuidados frequentes de sua mãe. Fazia dois dias que não conversavam. Naquele dia ao instalar a cortina no quarto de sua mãe, sua desconfiança a respeito dos olhares dele para ela se confirmaram. Não que Renan fosse feio, como o cliente no seu caixa naquele momento, mas pesava a diferença de idade. Ao ver o aviso de despejo sobre a cômoda, ele não hesitou em oferecer-lhe ajuda. Na semiescuridão da sala, ele fixou os olhos no seu decote, acariciou gentilmente seu braço até segurar sua mão. “Você é uma mulher muito linda e formosa”, foram as palavras dele. Naquele dia, antes de sair para o trabalho, parada na soleira da cama, enquanto aguardava a chegada de uma amiga, observava a mãe por um minuto tentando acalmar a angústia. Beijou a testa dela, ainda em dúvida: aceitar ou não a ajuda do vizinho e consequentemente o que viesse depois. Afinal, tudo nesta vida tem um preço. A única certeza que tinha é que ligaria para ele ao término de seu expediente.
“Quinhentos e setenta reais e quarenta e cinco centavos” , disse o valor total do carrinho lotado de mercadorias. O homem pagou desejando-lhe um bom dia.
Afastou-se das lembranças e do futuro incerto, quando um gordinho baixo, cabelos crespos grisalhos, acompanhado de uma bela mulher de vestido curto vermelho e um corpo lindo, despejou sobre o balcão duas caixas de cerveja em lata. Notou-se certo estresse na voz. Sua cara gorda e hipertensa, não lhe era estranha.
“Conheço você de algum lugar”, disse empolgada:
O homem, espantado ao ser reconhecido sorriu com
os dentes a mostra, as bochechas vermelhas queimadas
pelo sol, diminuindo seu mau humor.
“É possível sim. Sou escritor. Deve ter me visto
nas redes sociais. Às vezes eu bombo
por lá. Facebook, Instagram”.
A atendente já havia lido algo do escritor e
tinha gostado. Aliás, lembrou que o filho dele cursava direito na mesma sala e
sempre compartilhava os textos do seu blog nos grupos virtuais da turma da
faculdade. Achava interessantes os
contos que ele escrevia.
“O senhor encontrou tudo que precisava?”, Marcela perguntou após passar todos os produtos e com certa admiração.
“Como diria minha amiga e escritora Aden
Leonardo: encontrei, mas não posso pagar, aí vai só isso mesmo.” Respondeu o
escritor, despertando um sorriso sincero nela e pagando a conta com o cartão de
crédito de sua mulher.
O casal saiu carregando as sacolas plásticas e antes que se afastassem muito a atendente o surpreendeu ao chamá-lo.
“Senhor, senhor…”, ele se voltou para ela. “Um dia você conta minha história?”, pediu.
Sobre os olhares de alguns curiosos, sorriu respondendo.
“Pode deixar. Conto sim.”
[1]Méliuz é uma startup brasileira, criada em 2011, que disponibiliza gratuitamente em sua plataforma cupons de desconto de lojas online e devolve ao consumidor, em dinheiro, parte do valor gasto em compras direto na conta bancária.