Por Toni Ramos Gonçalves

A fazenda da família estava finalmente à venda. Fazia três anos que papai havia morrido e, desde o enterro, era a primeira vez que eu voltava lá. Éramos quatro os herdeiros e eu era o primogênito. Sabia que nenhum de nós poderia morar naquele lugar. Após a morte de papai, houve duas tentativas de invasão dos sem terra e como todos vivessem longe demais para cuidar da propriedade, decidimos pela venda. Na festa de formatura do ensino médio, de uma de minhas sobrinhas, a família finalmente conseguiu se reunir e então percebi um clima de palavras não ditas. Ao final da festa, chamei-os num local reservado.
“Na próxima semana, estarei de férias”, avisei. “Vou a fazenda resolver a questão da venda.”
Ninguém fez nenhum comentário, mesmo bêbados. Sempre tive o maior respeito por parte deles. Eu era jornalista de um conceituado jornal paulista e meu primeiro romance acabara de ser o vencedor do maior prêmio da literatura nacional.
Com um peso no coração, decidi ver a fazenda pela última vez, antes de assinar os documentos. Depois de duas gerações em poder da família, minhas árvores, meu riacho, meus campos passariam às mãos de estranhos. Sentia-me uma criança retornando ao lar, após longa ausência, cheio de ansiedade.
A casa da fazenda era a mesma de outrora. Nos fundos, o curral, onde, antigamente, pela manhã, se tirava o leite das vacas. Depois das tentativas de invasão, contratamos um caseiro para manter a área externa limpa e as máquinas restantes funcionando. A casa era sempre mantida fechada.
Desci do carro debaixo de um sol inclemente. O calor e o mormaço daquele lugar continuava o mesmo. Tive a sensação de que papai ia sair de dentro da casa e me receber sorridente na varanda. Lembrei-me da última visita, alguns meses antes de seu falecimento. Tinha os cabelos, a barba por fazer e as sobrancelhas brancas, da mesma cor da camisa, contrastando com a pele queimada pelo sol. Tinha as mãos trêmulas, magras e ásperas, mas mantinha o aperto forte.
Sentado no velho banco de mogno na varanda, escutava o passado. Papai adorava aquele lugar. Quando criança buscava eu e meus irmãos, para passarmos o fim de semana na fazenda. “Menino precisa de espaço para crescer”, falava para mamãe, quando nos buscava no apartamento. Ficava sentado ali fumando seu cigarro de palha, observando a gente brincar. Nas noites de verão, pegávamos vaga-lumes e os colocávamos em potes de vidro. Era o máximo. Era ali, na varanda, sempre ao pôr do sol, que papai ia contando as histórias das pessoas que viveram ali. Ele sabia das tristezas e alegrias plantadas em cada pedacinho de chão. “Seus avós se casaram quando ambos tinham dezesseis anos, às vésperas do Natal. Saíram da igreja numa carruagem branca, novinha, e vieram viver aqui. Tiveram oito filhos. Trabalharam arduamente durante anos, plantando verduras e criando vacas leiteiras e aos poucos, foram comprando as terras vizinhas.”
Levantei-me e me adentrei na casa. No interior mal iluminado, deparei com a foto antiga de casamento de meus avós, numa moldura oval e escura, pendurada na parede. Reparei que eu tinha certa semelhança com meu avô. Restavam poucos móveis, todos empoeirados. Olhei demoradamente todos os cômodos. Pairava no ar um forte odor de mofo e poeira. Papai sempre viveu na fazenda, mesmo depois de mudarmos para cidade, para estudar. Ele vivia suas ignorâncias, mas era um homem bom e muito direito com os seus compromissos. Depois que ingressamos na faculdade, mamãe veio morar novamente com ele. Sua rotina era vagar pela fazenda orientando os poucos trabalhadores que mantinha. Ora cuidava da horta, ora alimentava os porcos, mas seu lugar favorito era o pomar, onde passava horas debaixo das velhas mangueiras. Mesmo depois da morte mamãe, que uma noite foi dormir e não acordou mais, ele continuou morando sozinho. Nunca mais foi o mesmo. Foi vendendo as vacas, acabando com as plantações, até a fazenda ficar deserta. Às vezes, tinha a companhia de seu amigo de longa data, o Onofre, que o auxiliava em algumas tarefas. Os filhos raramente apareciam. Eu, por viajar muito, era o que mais o visitava, quando estava numa cidade próxima. Meus filhos e esposa nunca vinham. Alegavam que o sinal de internet não era bom.
No galpão que servia de depósito de ferramentas, encontrei o velho fusca azul, ano 1965. Era o xodó de papai e fazia parte da família. Quando nasci, ele já estava lá. As chaves do velho fusca pendiam do mesmo prego. Peguei-as, dei a partida e após a quarta tentativa o motor funcionou. Era como se tivesse entrado numa máquina do tempo. Outro amor que tínhamos em comum era “correr as estradas,” como papai costumava dizer. Quando o sol ficava muito quente, saíamos no fusca e pegávamos as estradas de cascalho. Eu e meus irmãos íamos no banco traseiro, na maior folia, rumo ao povoado, beber refrigerante geladinho no bar do Jovino, nadar nas cachoeiras, pescar no rio ou pegar frutas nas fazendas de amigos.
Lembrei-me do passeio que fizemos juntos durante minha última visita. Papai e eu saímos da fazenda e fomos dar uma volta. Ele queria fazer uma visita ao túmulo de mamãe. Quantas vezes, durante anos, eu e papai fomos lá cuidar dos túmulos. Na maioria das vezes, somente a presença do outro era suficiente. Palavras não eram necessárias; bastava a satisfação de ouvir o estalar do cascalho sob os pneus. Olhando para o céu, papai viu que nuvens se concentravam a oeste, e o vento alterando um pouco a direção. “Vem temporal aí”, previu. Eu concordei com um sorriso, quando dois grossos pingos de chuva bateram no para-brisa. Não demorou muito e desabou um temporal. Decidimos parar debaixo de um velho galpão em ruínas. E papai veio com mais histórias.
“Se você for naquela direção”, disse papai apontando na direção de uma plantação. “Atravessando aquele milharal, você irá encontrar um muro erguido pelos escravos e as ruínas de uma velha igreja queimada e, pouco mais adiante, uma árvore centenária com uma inscrição entalhada no tronco com as iniciais minha e de sua mãe. Brincávamos sempre de pique esconde naquele lugar. Foi lá que demos o nosso primeiro beijo.”
Com a chuva martelando o telhado de zinco, papai respirando fundo, me disse: “Levaram o velho Onofre para um asilo. Os vizinhos o encontraram vagando de pijama pela estrada, numa noite dessas. Ficou fraco das ideias. Bem que percebi que ele andava esquecendo-se das coisas. Vou ter que fazer todo serviço da fazenda sozinho.” Simplesmente, fiquei sem palavras naquele momento. “Cada homem tem sua sina”, concluiu olhando um arco íris no horizonte, enquanto a chuva diminuía.
Passada a chuva, já no cemitério, observava a distância papai resmungando, enquanto arrancava o mato ao redor do túmulo de mamãe. “Ainda não. Ainda não chegou a minha vez. Mas não vai demorar.” E sempre repetia a mesma frase quando voltávamos para fazenda. “Sabe filho, essa boa gente pode estar embaixo da terra, mas enquanto nos lembrarmos de suas histórias, de certo modo eles estarão conosco.”
Assim cheio de lembranças de um passado já distante, conferi o nível do combustível no fusca, manobrei e me afastei da fazenda. Automaticamente, tomei o caminho do povoado. Só que não havia quase mais nada por lá. Parei diante do bar do Jovino, estava fechada com tábuas e com uma placa de anúncio de venda. Vi alguns velhos vigiando pelas janelas e outros sentados nos bancos da pequena pracinha, sem reconhecer nenhum deles. Nem tive coragem de parar e me informar sobre o destino de velhos conhecidos.
Quando por fim saí dali, sabia onde iria em seguida: o cemitério, um pouco adiante. Peguei um caminho estreito, guiando fusca aos solavancos por uma trilha quase coberta pela vegetação. Chegando lá, caminhei sem pressa sobre o chão poeirento e cheio de folhas secas. Era como se não quisesse chegar. No túmulo de meus pais, as plantas no vaso estavam esturricadas. Tracei então com os dedos a data gravada na placa de metal com data de nascimento e morte. Não resisti e chorei a saudade por vários minutos.
O enterro de papai teve de ser rápido. Encontraram-no morto no pomar da fazenda. Um dos amigos notou sua ausência na noite do truco, realizada todas as segundas-feiras no bar do Jovino. Ele nunca faltava. Disseram que havia três dias que tinha falecido.
“Sou um homem de pouca leitura, mas sei que você tem muito talento”, lembrei-me de suas palavras ao meu ouvido, enquanto me abraçava na nossa última despedida. “Continue escrevendo, meu filho.”
E fiquei algum tempo ali parado, em silêncio, me recuperando, afagado pela brisa, enquanto o sol descia no horizonte. Então, peguei o celular, liguei para minha mulher e falei decidido.
“Querida, eu sei o que vou fazer com aquele dinheiro que recebi do prêmio literário.”

ANTE A FORÇA DE UMA VIVÊNCIA
Analise crítica de Wagner Andrade, poeta.
Nem sempre é fácil discernir sobre lembranças por meio da arte da escrita. Ainda mais a envolver pessoas tão queridas ou situações que fazem parte do nosso passado, das nossas vivências. A capacidade de penetrarmos em alguma esfera de vida é como se nos permitíssemos guiar por uma sensível máquina do tempo, em que possamos explorar os caminhos de outrora, não somente atravessados por ilusões, como também por incontáveis desilusões. Mas a lembrança do amor direcionada àqueles que, de alguma maneira, deixaram gravados na existência seus sinais e marcas, vem a compensar todo o esforço empregado no presente, toda a saudade do passado que insiste em mexer com os sentimentos pessoais. A narrativa do conto em primeira pessoa cria condições para que o próprio protagonista vivencie de maneira lúcida, profunda e reflexiva, os eventos e acontecimentos que marcaram a sua existência de forma saudosa e significativa, ao mesmo tempo que busca prender a atenção do leitor e aproximá-lo ainda mais do drama vivenciado pelo personagem, numa tentativa de mexer igualmente com os seus brios e sentimentos. de tocar nas suas emoções. E é interessante como tudo isso pode se tornar viável e explícito, mesmo numa narrativa literária curta.