Souvenirs

Toni Ramos Gonçalves

Alice está na cama, adormecida. Adora cochilar depois do almoço de domingo. Dorme de flanco, pernas flexionadas, anca saliente sob o lençol. Uma luminosidade opaca entra pelo janelão e divide o quarto ao meio, o claro e a sombra. Junto ao vidro, observo a chuva que cai intensamente sobre a cidade. Respiro fundo e penso novamente no envelope com as fotos que furtivamente escondi, entre vários papéis, na última gaveta da escrivaninha, bem ali ao lado, no escritório.

A desilusão chegou ontem à tarde por volta das dezesseis horas. Veio, mas não sem antes avisar. Pois bem me lembro da noite em que a conheci, naquela boate barulhenta e enfumaçada. Aquela mulher dançando sensualmente diante de mim, alegrando absurdamente meu coração. Era mais um perigo iminente. Ah! Se eu pudesse voltar no tempo, teria pagado o meu drinque, ido embora, evitando, assim, maiores despesas com o destino. Mas o meu coração apressado e algumas doses de uísque me levaram à pior besteira que fiz na minha vida cheia delas.

Passamos a viver juntos e agora olhe para mim. Trancado neste quarto, enquanto tudo se esvai. Olho em volta e as lembranças da nossa curta história parecem apressar o meu fim. Aqui, sobre a cabeceira, está aquela tarde quando compramos este abajur de cerâmica em uma lojinha minúscula, no Mercado Central. Os donos eram um simpático casal de ex-hippies. Era um dia como hoje. Chovia quando saímos com o embrulho nas mãos. Nos abraçamos. Os agasalhos traziam um calor agradável, quase humano. Estávamos há uma semana juntos e eu não podia mais viver sem ela.

Ali pendurada na parede está um dia em Búzios. Após a praia, almoçamos em um restaurante na Avenida Beira Mar, que pertencia a um velho pintor. Champanhe, frutos do mar, carinhos e beijos. Duas semanas juntos. Ela se impressionou com o quadro a óleo em exposição. Achei de certo mau gosto, mas ela insistiu, então o comprei. Faria qualquer coisa para agradá-la.

Ali no porta retratos, está a noite em que ela falou pela primeira vez que era minha. Foi durante um jantar esplêndido, no Clube Tropical. Durante um longo beijo, ela sussurrou as palavras em meu ouvido:

– Eu te amo!

Não me recordo de ter experimentado emoção semelhante. Naquela mesma noite, fizemos amor pela primeira e única vez. Foi tão intenso. Agora está tudo acabado. Ontem, às duas horas, recebi a ligação:

– Já terminei a investigação.

O detetive particular correspondia perfeitamente à imagem que eu fazia de um profissional do seu ramo. Um tipo sórdido, mas muito competente, enriquecendo-se esmiuçando os podres alheios, as fraquezas humanas.

Marcamos o encontro para o fim da tarde, em um bar discreto, na periferia. Ele abriu a tal pasta e mostrou-me toda a sujeira. Fotos, vídeos e relatórios. Tinha os horários dos encontros e os codinomes dos amantes.

– Lamento, mas sua mulher está lhe traindo. Por questão de ética, não posso dar os nomes verdadeiros dos amantes. Sinto muito! – disse o detetive, como se conhecesse alguma ética.

Então ele despejou todas aquelas fotos sobre a mesa com os encontros amorosos dela. A maioria dos amantes eu conhecia, não precisava dos nomes para alimentar ainda mais a minha fúria.

Exatamente hoje, pela manhã, ela disse que iria embora. Minha deusa do amor! Enlouqueci. Antes do almoço, coloquei no seu suco natural algumas pitadas de veneno comprado no mercado negro, o qual, segundo o rótulo, mata em até trinta minutos. Depois, me retirei, dizendo estar indisposto. Ela continuou em silêncio, como tem ficado nos últimos dias e se dirigiu para o quarto.

Meia hora depois a encontrei dormindo como um anjo, encoberto pela cabeleira loira, mantendo toda sua beleza. Meu coração se parte, mas só há um deserto de alternativas quando se está prestes a perder a mulher da sua vida. E o deserto é ainda mais desolador e hostil quando essa mulher se vai. Deito-me ao seu lado segurando sua mão fria e sem vida.

– Ah, Alice! Foste tão igual e tão diferente de todas as outras, todas jovens humildes do subúrbio, deslumbradas com a vida de luxo e conforto que eu lhes dava!

  Olho em volta e lá estão os objetos que me recordam de algumas delas. O relógio de mesa, comprado na feira artesanal, me lembra de Regina.  Pobre Regina! Tão linda em sua melancolia! Nunca consegui entender seu suicídio.

Já aquele quadro da feirinha da Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte me recorda Raquel. A impetuosa e determinada Raquel! Parecia conter a intensidade de cada sílaba do seu nome. Poderíamos ter sido muito felizes, não fosse aquele terrível acidente ao tentar fugir de mim, naquela noite de chuva!

E também aquela escultura de um antiquário, comprado em São Paulo, me lembra de Sílvia. A doce e delicada Sílvia! Coitada! Preciso visitá-la mais uma vez na clínica psiquiátrica!

– Oh, minha sedutora Alice! Nem o diabo se atreveria abandonar um homem como eu. O lado racional dessa cabecinha de vento deveria ter-te advertido sobre o risco que você estava correndo, meu amor! Puxa, benzinho! Quantas vezes provei a dimensão do que sentia por você! As surras que lhe dei, por exemplo, eram uma forma de demonstrar o meu ciúme, coração! Se eu lembrava, a todo instante, cada centavo gasto contigo, era para mostrar-te o quanto a valorizava, meu docinho de coco! E por tudo que fiz por você, o meu alcoolismo, a minha impotência, os meus surtos e os quase quarenta anos de idade que nos separam, você devia ter superado… Eu não merecia mesmo… Você não podia ter feito isso comigo, minha querida!

AS FACES DO CRIME

APRESENTAÇÃO DO PROJETO

Um mês, um conto” surgiu das entranhas criativas de dois escritores mineiros, Paloma Bernardino Braga e Luca Creido, que almejavam reconstruir a escrita conjunta de sua cidade. Mal sabiam eles que o projeto iria alcançar outras tantas partes do Brasil.

O projeto não se trata de mais uma “panelinha literária”, ou uma antologia caça-níquel. Nada disso. “Um mês, um conto” é simplesmente um sonho de reunir um grupo de autores que possuam como principal preocupação da sua literatura o existir literário: existir em um mundo opressor ao escrever e ao ler; existir em local de cobrança e eficiência, que não se adequa à calma da escrita criativa; existir no meio da grande engrenagem econômica que se transformou nosso mercado editorial.

Em 2020, realizamos a primeira edição do projeto por meio do gênero literário “terror” e publicamos nossa primeira antologia “Mal, Monstros e Maldições” — que alcançou o décimo primeiro lugar na Amazon em “Antologias, Literatura e Ficção”.

Ao fim dessa edição, recebemos excelentes feedbacks de nossos autores, que estavam empolgados por continuar o projeto. Assim nasceu a segunda edição: o conto policial.

“As Faces do Crime” é a antologia que nasceu de nossa segunda edição. Durante o mês de janeiro de 2021, 23 autores, de diferentes partes do Brasil — e a Flávia lá em Portugal! — escreveram contos policiais. Em três quintas-feiras, partes dos trabalhos foram disponibilizadas em sites, redes sociais, no Wattpad e no perfil do Instagram do projeto (@ummesumconto). É nesta antologia que você encontra a versão final de cada um dos contos.

Nos textos que seguem, você participará da investigação de crimes e será tomado por incertezas. Ao final de cada conto, será surpreendido com as respostas. Então, encoste-se na sua melhor cadeira, arrume suas almofadas, coloque o meu melhor traje de investigador e se prepare para encontrar, nos contos a seguir, as diversas faces do crime.

            No final, pergunte-se: “para qual face eu estou olhando?”.

Desejamos boa sorte na leitura,

Os organizadores

Em breve disponibilizaremos os links para compra na Amazon.

A última chance – Parte 3

Sérgio Thorres

SINOPSE: Em suas idas e vindas J.P deseja consertar algo que supostamente saiu errado e assim salvar Cléo, mesmo que lhe custe a própria vida. Para que isto aconteça conta com a ajuda inusitada de Geena, porém, só resta uma única chance…

PARTE 3

Já do lado de fora senti que a última porta se movimentava. O senhor Fred, ao sair, virava-se para trancá-la quando o vi e, numa agilidade inexplicável, corri em silêncio atravessando o corredor. Acho que não fui visto. Tive a ligeira impressão de que ele tinha se virado na minha direção. Em instantes, a porta da sala de insumos foi aberta. Ele entrou quando eu segurava a última embalagem. “Terminei”, falei logo que o vi perto. Perguntou-me se estava tudo em ordem, e afirmei dizendo que eram muito cuidadosos com os produtos.

Notei nele uma preocupação e sabendo o porquê… “Acho que as luzes piscaram”, menti justificando as portas. Disse estar aliviado ao me ouvir, pois algumas delas estavam abertas. Percebi então que fui convincente. Um bom ator.

Saímos da sala. Enquanto caminhávamos, notei que ele mantinha a mão direita sobre o cabo do revólver, mesmo se mostrando tranquilo, parecia temer algo. Acho que meu nervosismo foi maior. Ver como segurava firme aquele cabo escuro, era o motivo de eu estar tenso. Não via a hora de sair dali. “Quem diria que um dia faria algo daquele tipo!”, pensei com o coração acelerado.

A atendente, ao nos ver, se mostrou tranquila. Também sorridente. Agradeci sendo prudente com as palavras e segui pro estacionamento. Logo que saí, olhei pra trás, discreto, e percebi que ainda era observado. O senhor Fred imaginava algo sobre mim. Desejei correr, mas acho que passaria uma má impressão. Me contive e continuei a caminhar. Em meus pensamentos, a possibilidade de ter provocado alguma alteração no C.P.M era uma dúvida. Somente quando estivesse no futuro é que comprovaria o sucesso da missão.

Não via a hora de retornar, mas temia não ter conseguido como das outras vezes. Voltar ao presente e rever Cléo rodeada por instrumentos mantendo-a viva, trazia agonia, talvez por saber que o passado poderia ser alterado. Não era uma mera perspectiva de um cientista maluco e sim algo verídico. Já havia voltado outras vezes. Apenas causara pequenas alterações, e, segundo Geena, foram cruciais para o bom andamento do plano.

Precisava voltar pro meu próprio tempo. Estar ali não era prudente, mas desejava ver Cléo mais uma vez. Ainda com receio de ter perdido a última chance de salvá-la, fui pra seu apartamento. Com certeza, a encontraria lá e quem sabe trocássemos algumas palavras apresentando-me como um vendedor, talvez. Enquanto dirigia pelas ruas escorregadias a baixa velocidade, tecia esses pensamentos, mas o risco de causar algo ruim no futuro era grande. Com receio, decidi ir pra casa e dar por encerrada aquela missão.

Ao entrar no estacionamento, senti um cansaço anormal. Logo ao parar, fui pego por uma sonolência diferente. Debrucei no volante e fechei os olhos. A viajem acontecia nos meandros da memória e, para que isso acontecesse, deveria estar desacordado. O sono funcionava como ponte. Interligava passado e presente.

Naquele breve cochilo, voltei…

O gosto do Composto Polarizador de Memórias, embrulhava o estômago. Não tinha como explicar. Sabia que por horas sentiria aquele gosto amargo, doce, azedo e gelado. Mas, frente aos benefícios, dava pra suportar. A sensação de rever pessoas que marcaram minha existência, era muito boa. Mas, naquele momento, ao acordar em meio ao paladar ruim, vi o jornal que noticiava a enfermidade de Cléo. Ela estava no mesmo lugar. Eu ainda sentia o frio do passado em minhas entranhas. Reações normais por ter ficado a baixa temperatura por longas horas. A sensação de impotência e de não ter conseguido associada ao medo de, talvez, ser o causador de algo ruim, veio forte. Estendi o braço até o jornal, e o aperto no coração foi maior. A notícia continuava lá do mesmo jeito, o que comprovava o fracasso da missão.

Passar por tudo aquilo, e não ter o resultado esperado, foi uma decepção. Relendo os detalhes daquela reportagem, foi difícil conter a emoção. O choro foi inevitável. Vinha fraco, silencioso e frequente. Desconectei o Capacete Indutor. Depois de sentado, levei a mão ao pescoço e senti um pequeno calombo. A picada da agulha também incomodava. Não sabia que rumo seguir. Meu corpo não aguentaria outra viagem, pelo menos naqueles dias. Minha memória começava a ser afetada pelo C.P.M. Era perigoso me submeter ao processo novamente, mesmo já estando aprimorado. Meu organismo necessitaria de mais tempo, o que Cleonice não tinha. Estava em coma há um longo período.

Então desejei vê-la, mesmo que em um leito de hospital. Segui rápido. As luzes foram minhas companheiras. Não sabia se conseguiria entrar fora do horário de visitas. No caminho, flashes das ruas congeladas pela nevasca vinha contra minha visão que, naquele momento, mostrava o asfalto negro e seco. Meu corpo exprimia leves tremores. Ainda eram os efeitos da viajem ao passado. A temperatura continuava uma constante em minhas memórias. “Se Cléo foi salva, já era pra eu ter me lembrado. Se não me lembrei é sinal de que realmente não foi salva, está no mesmo quarto e conectada aos instrumentos que a mantém viva”, murmurei revoltado.

Difícil nomear meus sentimentos naquele momento. Raiva, frustração, indignação, revolta, tristeza, incerteza do que fazer. Uma mistura de emoções que surgia a cada segundo. Por vezes, senti as faixas amarelas da avenida principal esconder por debaixo dos faróis obrigando-me a desviar pra não colidir com outro veículo.

Por fim, cheguei ao hospital. Entrei afoito e fui barrado pelo porteiro. Insisti em ver Cléo. Ele afirmou não ser possível, ordens da doutora Geena Kirsten. Então desejei ver Geena. Desconfiado, me deu o endereço. Não era longe. Precisava de respostas. Fui rápido. Por certo, fui mais cauteloso ao volante. Desejava chegar lá com vida. A lembrança da sala de Geena surgiu como explicação de que ela saberia dizer o porquê de meu retorno não ter dado certo.

Cheguei ao endereço e segui para o que parecia ser um mirante. Uma luz fraca próxima a um banco de madeira mostrava a figura de uma mulher sentada. Meu coração acelerou. “Cléo!”, murmurei arregalando os olhos. Ela estava de frente pro mirante. Consegui notar somente a silhueta. Ainda pensando ser Cléo, aproximei-me mais e notei que trazia um penteado diferente. Não me lembrava de vê-la com aquele corte.

Naquele momento, uma brisa tímida mostrou que o frio tinha ido embora. Não tremi ao senti-la, talvez por estar com o sangue agitado pelo nervosismo. Aproximei-me mais, e a mulher, ao se levantar, virou-se na minha direção. “Geena?!”, disse surpreso ao reparar a dona daquele cabelo diferente. “E Cléo?”, falei com indignação. “Se sabia que não ia dar certo porque me incentivou a voltar?”, pensei olhando-a fixamente. “Oi, J.P”, falou olhando meus olhos de maneira pela qual jamais fui olhado. Percebi uma atração forte como se fosse sugado por aquele olhar enigmático. Havia algo diferente nela. No momento não soube desvendar aquele mistério. Outra surpresa para mim, mas, se fosse algo novo, não seria sobre Cléo, porque nossa pretensão era salvá-la, o que não acontecera, pois a notícia no jornal comprovou que ainda estava em coma.

Então Geena me abraçou forte. Depois disse ao pé de meu ouvido esquerdo da alegria em estarmos no local onde planejamos festejar nosso casamento. No mesmo instante, fui ao espaço e voltei. Me afastei e arregalei os olhos imaginando que, se éramos casados, o futuro fora alterado provocando aquilo. “Somos casados?”, falei assustado. Ela disse que sim, que havíamos nos casado, mas não um com o outro. Se casara com um dos médicos de Cléo. “E ela?”, insisti me lembrando do jornal. Afirmou que o quadro clínico era o mesmo. “Pra imprensa e pra todos, Cléo continua em coma desde que foi internada no dia em que vocês se casaram”.

Então qual o motivo de eu ter voltado se ela não seria salva?”, insisti. Ela disse que continuava tudo do mesmo jeito, sempre fora o plano, provocar uma mudança no passado alterando apenas o necessário pra que o futuro pudesse prosseguir. “Não entendo!”, afirmei confuso. Falou, ainda me olhando diferente, que aquela Cléo que estava internada já não era a mesma…

Não compreendi aquela fala… Foi naquele momento que senti uma mão fria tocar meu braço direito…

FIM

Antonio Sérgio da Silva (Sérgio Thorres), nasceu em Itaúna, Minas Gerais.Possui formação técnica em “Eletroeletrônica” e seu gosto por “literatura fantástica e ficção científica” liberou seu lado criativo mostrando que não há idade para se começar algo. Ao longo de seus 51 anos, há dez como amante da escrita, vive em meio a escrita, tendo como princípio a saga “Filhos de Lhuxxor” (ficção científica). Participante da coletânea “Hipérboles“, (Editora Ramos).

Dias passados – Parte III

Toni Ramos Gonçalves

SINOPSE: Num futuro não muito distante, após a colonização de Marte, um homem busca se reencontrar num mundo devastado por um governo opressor. Em meio a um drama de incertezas e a fragilidade de sua natureza, luta contra sua própria consciência diante de um amor impossível.

PARTE III

No alto, a luz da manhã, uma brisa fria, as nuvens deslizando no céu azul esmaecido e nas colinas distantes.

Estamos de partida. Enquanto preparo minhas mochilas, Juninho agita os dedos. Sinais, sinais. Quer explicar algo. Não consigo entender. Está afoito, e eu só tenho pensamentos para Alice. Ela vai ser minha! Gesticulo para Juninho e oriento que me espere lá fora por um instante. Ele se afasta fazendo sinais, chateado. Parece que quer levar algo ou alguém conosco. Minha impaciência me impede de entendê-lo.

 Vou ao encontro de Alice, minha amada, oferecer-lhe o meu amor marginal. Não posso impedir-me de amá-la se não tenho nada para amar. Eu não sou um ser de exceção, sou um homem, força e fraqueza, previsão e imprudência, sonho e loucura. Os deuses brincam comigo. Permaneço algum tempo junto à porta, parado. Entro no quarto onde ela prepara sua mochila, entontecido e trêmulo. Ela se levanta e me fita sem espanto.

– Eu preciso dizer algo para você. – falo num sussurro.

Alice não responde, olha-me em silêncio. Pertence-me, ninguém vai arrebatá-la de mim nem mesmo meu irmão.

– Querida! Eu te amo!

Ela permanece silenciosa, baixa os olhos, submissa. Não se oferece, tem dignidade e pudor.

– Podemos passar uns dias no chalé… Lá parece seguro. O Juninho vai gostar.

Abro os braços, enlaço-a, aperto-a de encontro a mim, abraço-a com fúria, com desespero, busco seu rosto, a boca, mas antes de alcançar-lhe os lábios, nos assustamos com o barulho de helicópteros sobrevoando o abrigo. Afasto-me dela e pela janela vejo duas aeronaves sobrevoando a região em círculos.

– São aeronaves da BIFROST. – digo para Alice.

– Onde está o Juninho?

– Está lá fora… Acho melhor sairmos daqui enquanto é tempo. 

Pegamos nossas mochilas e saímos do abrigo. Mas não encontramos o menino do lado de fora. Circulamos a casa. Alice se desespera e inutilmente chama por seu nome.

– Fique aqui para o caso de ele voltar. Não deve ter ido longe. 

Tento localizá-lo buscando algum rastro no meio do mato. Preciso manter a calma, me concentrar. Verifico as trilhas. O barulho dos helicópteros me incomoda e preocupa. Corro sem direção por alguns minutos até a uma parte alta que amplia minha visão sobre o terreno. Uma movimentação numa trilha logo abaixo me chama a atenção. Vejo Juninho no encalço de um cão de médio porte. Percebo que a trilha vai na direção da estrada. Ao longe, avisto um comboio de carros SUV levantando poeira. Terror! Deslizo pelo barranco, corro desenfreado, o capim cortando meu rosto. Preciso chegar ao menino a tempo. Tropeço, caio, arrasto-me, me levanto, uso todas as minhas forças. Então, eu ouço um estouro, o ganido, a freada brusca na terra. 

Chego à estrada desorientado. O comboio está parado.

– O menino?… Onde está o menino?… Juninho?… – olho em torno, vejo os soldados me encarando.

Um helicóptero aterrissa a uns duzentos metros na estrada levantando poeira. Um homem desembarca dele e vem correndo na minha direção.

 Lanço-me para frente do comboio. Lá está ele, o meu menino, Juninho! Estendido no chão, o corpo mole e informe, os olhos semicerrados fixados num ponto além, as pálpebras azuladas e da boquinha escorrendo um filete de sangue! Tomo-o nos braços, aperto-o contra mim, o seu flácido corpinho junto a meu peito, Juninho e eu, vigor e desfalecimento, uma vida que se esvai.

***

Estou indo embora, não sei para onde, não tenho destino.

Eu tenho saudade dos dias passados, da confiança, do abandono, da inocência. Você nunca sabe o que o amanhã pode trazer.

As terras correm, o horizonte é uma linha sinuosa, a distância é imutável, quilômetros. Guindastes imensos trabalham na construção do muro gigantesco que irá proteger a cidade privatizada. Dois seguranças me conduzem por um corredor extenso no Complexo da BIFROST.

No fim do corredor, Jaime e Alice conversam. Ao me ver, ela se afasta e entra numa sala. Meu irmão vem ao meu encontro, diante de mim, aperta as mãos sobre meu ombro e diz num tom súplice:

– Você não teve culpa, meu irmão. Foi obra da fatalidade!

Não tenho coragem de olhar nos seus olhos e ouço cabisbaixo.

– Desde que voltei da Europa, – continuou – usei os satélites para encontrá-los. Queria ter chegado antes. Se não fosse aquela explosão e você tivesse ouvido minhas instruções antes da queda de Belo Horizonte… Também, se não fosse a chuva, teríamos encontrado vocês antes daquela tragédia. Se… Se… Se… São muitos os “ses”.

Jaime se afasta um pouco e engole o próprio choro.

Sofro com ele mais do que tudo. Já não sou o irmão de meu irmão, devo ir-me embora, ser esquecido. Eu não posso me perdoar nunca. Meu irmão haverá de acompanhar-me, estará comigo para todo o sempre, com esta mesma tristeza, este torpor e desalento. Faço um exame de consciência, reconheço minha culpa. Eu fiz a minha escolha. Não consigo olhar nos seus olhos e dizer-lhe: – Sou um covarde, sempre fui. Sim, eu lembro-me de ouvir as instruções pelo celular antes da explosão: “Saia daí imediatamente. Vá para o aeroporto. Vocês estão autorizados a viajar para um lugar seguro.” Mas eu não tinha outra mulher como Alice para amar. Ela veio, surgiu no meu caminho, encheu minha solidão. Afeiçoei-me a Juninho como se fosse meu filho. Fui vítima do desejo, do amor. Onde foi que eu me perdi? Quando foi que eu me desencontrei? Perdi o mundo de ontem; onde estará o de amanhã?

Jaime me olha desconsolado, desamparado.

– Sinto muito, irmão. Nós fizemos o melhor possível. – minto na minha tristeza e angústia.

Antes de sair pela porta, para sempre, busco ainda um último olhar de Alice na sala ao lado. Não vejo os seus olhos. Estão afogados em lágrimas. Não insisto em seu olhar. Não me pertence. Nada mais me pertence. Já não existo, sou uma sombra exilada. Não tenho alma. Meu coração morreu!

O CONTO FEZ PARTE DO PROJETO #EMUMMESUMCONTO, E EM BREVE VOU PUBLICAR OUTROS CONTOS DO UNIVERSO DE DIAS PASSADOS, (AGUARDEM!)

Toni Ramos Gonçalves nasceu em Itaúna-MG, no ano de 1971. Escritor contista e editor estreou na literatura com a novela O Último pôr do sol, em 1996. Autor de quatro livros foi vencedor de vários prêmios literários pelo Brasil. Participou de inúmeras coletâneas como coautor e organizador. Foi fundador e o primeiro presidente da Academia Itaunense de Letras, fundada em 2015. Recebeu o Troféu Capitão-Médico João Guimarães Rosa em 2019, em Belo Horizonte – MG.

Dias passados – Parte II

Toni Ramos Gonçalves

SINOPSE: Num futuro não muito distante, após a colonização de Marte, um homem busca se reencontrar num mundo devastado por um governo opressor. Em meio a um drama de incertezas e a fragilidade de sua natureza, luta contra sua própria consciência diante de um amor impossível.

Penso no dia em que cheguei a Belo Horizonte. Minha ignorância, inocência. Eu já amava Alice e não sabia. Era noite, e eu nunca os vira. Ela me recebeu à porta. Juninho ficou escondido atrás dela, desconfiado. Apresentei-me e, ao entrar no apartamento, cumprimentei o garoto com gestos da língua de sinais. Ele olhou para a mãe surpreso e riu sem emitir som. 

Nas semanas seguintes à minha chegada, mantive-me sempre à espreita no apartamento. Não queria ser importuno e muito menos imprudente. Alice tinha o talhe esbelto de uma princesa, os olhos meigos, o perfil nobre, toda pureza e, ao mesmo tempo, era sensual e envolvente. Era perfeita nas suas formas. Na maioria das vezes, eu a evitava e me entretinha nas tarefas e lazer de Juninho.

Lembro-me das horas de sossego e paz em que ficávamos os três na varanda ao ver o pôr do sol. Juninho era o meu companheiro, agarrava-se comigo, não me soltava, e eu também o estimava – não sei se com o mesmo sentimento de um pai – e evitava pensar que teria de deixá-lo em breve. Alice fazia-me perguntas, demonstrando crescente interesse por tudo o que me dizia respeito. Espantou-se porque vivia sozinho no Rio de Janeiro. Fez um esforço para imaginar minha solidão, olhou-me incrédula, compadecida.

– Jaime confia muito em você. – disse Alice contemplando um ponto longínquo.

O sol de maio, agonizante, dourava as faces dela e deitava pingos de luz em seus cabelos negros.

– Sempre fomos amigos. – respondi com uma voz quase inaudível. Jaime é mais do que irmão, é um amigo. Tivemos uma infância, adolescência e juventude em comum. O olhar paterno nos acompanha, a mão de nossa mãe nos abençoa. Quis o destino que tudo fosse preparado com requintes e sutilezas. Eu iria apaixonar-me pela mulher do meu irmão.

– Sempre gostou, não é? Ele diz que você é um irmão e tanto. São tão diferentes!

– Sim, mas parece que temos algo em comum.

– O quê?

Alice me olhou, e eu sustentei o seu olhar. Era impossível que ela não soubesse, não percebia, não sentia. Um arrepio percorreu-me o corpo, depois um ardor e uma onda gelada, um tremor, um calafrio.

Juninho chamou minha atenção, puxando minha camisa. Eu me recompus. Ele apontou na direção do céu que escurecia, e vimos vários pontos luminosos agrupados em uma longa fileira. Eram mais satélites da BIFROST, lançados na órbita da Terra. Em pouco tempo tudo estaria sobre sua vigilância.

***

A chuva cessou no meio da tarde, e a noite chegou mais fria do que nunca. Tive que acender uma fogueira, apesar de ser perigoso. Alguém podia estar à espreita, pronto para nos atacar e roubar. Nem todo mundo foi para as colônias ou cidades privatizadas, principalmente os criminosos, o que aumentou a violência nas estradas. 

Juninho adormeceu no meu colo, gesticulando sobre o cachorro que novamente rondava o abrigo. Ele é a alegria deste triste mundo. Eu o coloco sobre um trapo de colchão, numa distância segura do fogo, para que se aqueça. Alice está sentada do outro lado da fogueira, calada de um modo inexpressivo, quieta demais. A sua beleza me encanta e, quando seus olhos se voltam para mim, desvio o olhar.

Esparramo o mapa no chão e procuro uma rota segura. Não é aconselhável ficar muito tempo no mesmo lugar. Durante a tarde, vasculhei as casas de vilarejo abandonado e não encontrei nada útil. Minha sorte foi encontrar um chalé, cercado por eucaliptos, bem no topo de uma montanha e de difícil acesso. Lá dentro, encontrei o corpo de um homem idoso, no meio da sala, com a cabeça estourada e um revólver ao lado. Levei um tempo para me recuperar ao lembrar que aquele poderia ter sido meu destino. Pelo estado de decomposição, não havia falecido há muito tempo. Na cozinha, encontrei muitos enlatados; e num dos quartos, vários remédios. Havia também um escritório com inúmeros livros. Numa das paredes, um painel com vários recortes de jornais sobre a Pandemia da Sars-CoV-2, a Guerra Civil brasileira, a chegada a Marte e a criação das cidades privatizadas e colônias, todas elas interligadas ao nome da BIFROST Corporations. Sobre a mesa, uma foto de dois idosos, um homem e uma mulher que tinha no colo um cão, ainda filhote. Encontrei também uma agenda com inúmeras anotações. Guardei-a dentro da mochila sem saber o motivo.

– Quem está perdido? Nós ou o Jaime? – pergunta Alice rompendo o silêncio.

Finjo não ouvir e continuo a olhar o mapa.

– Por que não vamos a uma cidade privatizada e tentamos entrar em contato com ele na BIFROST?

Ergo os olhos do mapa, permito-me contemplar Alice.

– Você sabe que não podemos. Você lembra o que aconteceu e devemos seguir as instruções.

Então me levanto e sento-me ao seu lado. Ela começa a chorar. Abraço-a repousando sua cabeça no meu ombro.  Palavras não são mais ditas. O silêncio costuma ter um peso, uma torturante densidade.

***

Naquele dia ensolarado, por volta do meio-dia, ouvia as instruções de meu irmão pelo celular enquanto ruídos de sirenes, tiros e gritos vinham das ruas.

Alice segurava Juninho no colo, sentada no sofá diante da TV, o olhar aflito ao ver as imagens dos inúmeros protestos pelo País. Na noite anterior, o Governo Brasileiro havia aprovado o projeto da BIFROST Corporations para a construção das cidades privatizadas e colônias de trabalhadores para a mineração em Marte.

O que se sucedeu foi tudo muito rápido. Através do janelão da sala do apartamento vi surgir uma gigantesca coluna de fumaça no horizonte. Imediatamente pulei sobre Alice e Juninho com o intuito de protegê-los dos estilhaços do vidro que explodiu logo em seguida com a onda de choque.

Ficamos ali no chão por algum tempo, atordoados, a sala destruída, a poeira sufocando-nos. Ouviam-se inúmeros alarmes de carros disparados. Verifiquei se Alice e Juninho estavam feridos gravemente e constatei apenas alguns arranhões. O menino chorava assustado.

– Temos que sair daqui.  Pegue as mochilas de emergência. Rápido!

Eu planejara nossa fuga para situações como aquela. Fazia alguns dias que a tensão aumentara em todo o País. A rebelião vinha sabotando as áreas estratégicas do Governo e explodindo monumentos históricos. Na semana passada, implodiram o Cristo Redentor, num plano audacioso.

– Mas o que o Jaime disse? – perguntou Alice, quase gritando.

– Explico no caminho. Aqui não é mais seguro.

Minutos depois, descíamos pelas escadarias do prédio, em meio ao tumulto e atropelos dos outros moradores. Com muita dificuldade, saímos com o carro da garagem cantando os pneus, porém não conseguimos ir muito longe ao alcançar a rua. O trânsito estava congestionado, pessoas gritando umas contra as outras, policiais lançando bombas de gás lacrimogênio, tiros de efeito moral, buzinas, um caos total. Um veículo explodiu uns cem metros à nossa frente. Alice protegia Juninho como podia no banco traseiro.

– Meu Deus, tire a gente daqui! – gritava Alice em meio ao choro.

Desde 2022, o País enfrentava uma guerra civil. Pouco antes das eleições daquele ano, um golpe militar fechou o Congresso Nacional. Quando o candidato da oposição foi encontrado morto, várias rebeliões se desencadearam pelo País. Além da Pandemia da Sars-CoV-2, ocorreram várias mortes atribuídas ao Governo opressor. A Capital Mineira era um dos grandes focos da resistência naquelas três décadas de opressão.

Saímos do veículo e seguimos a pé. Pelas ruas, dezenas de carros abandonados, em chamas ou destruídos. De todos os lados, à distância, ouvimos tiros de armas de fogo e o ressoar abafado de pequenas explosões. Vez ou outra deparávamos com um corpo pelo caminho. Evitávamos qualquer confronto desnecessário, apesar de ter em punho minha pistola Glock. Escondemo-nos num beco, atrás de uma lixeira, quando um comboio de blindados militares e de tropas de soldados fortemente armados cruzou nosso caminho na direção ao centro. No céu, inúmeros drones de combate.

Ao sair da área urbana e alcançar a mata, nos sentimos mais seguros. Havia uma quantidade enorme de pessoas caminhando na mesma direção. Lembro-me de Alice pedir para ligar para Jaime, mas não encontramos nossos celulares. Depois, não conseguimos fazer contato, uma vez que ele se encontrava na Europa. A BIFROST, a pedido do Governo, limitou as comunicações fora das cidades privatizadas com o intuito de isolar a Rebelião e restringir seus ataques.

Por fim, pouco antes do anoitecer, do alto da Serra do Curral vimos desolados vários caças bombardearem a cidade. Ela ardia em chamas. Nosso mundo começara a ruir.

CONTINUA…

Toni Ramos Gonçalves nasceu em Itaúna-MG, no ano de 1971. Escritor contista e editor estreou na literatura com a novela O Último pôr do sol, em 1996. Autor de quatro livros foi vencedor de vários prêmios literários pelo Brasil. Participou de inúmeras coletâneas como coautor e organizador. Foi fundador e o primeiro presidente da Academia Itaunense de Letras, fundada em 2015. Recebeu o Troféu Capitão-Médico João Guimarães Rosa em 2019, em Belo Horizonte – MG.

A última chance – Parte 2

Sérgio Thorres

SINOPSE: Em suas idas e vindas J.P deseja consertar algo que supostamente saiu errado e assim salvar Cléo, mesmo que lhe custe a própria vida. Para que isto aconteça conta com a ajuda inusitada de Geena, porém, só resta uma única chance…

O senhor Fred não imaginava que eu estaria munido de todas as senhas daquele corredor. Logo que saiu, aguardei alguns minutos e segui rumo à sala de Cleonice. Com a sensação de ser um espião, me esgueirei pelos corredores com todo o cuidado pra não ser pego. Sabia também que naquele momento somente a atendente e o senhor Fred estavam no prédio.

Caminhando quase gatinhando, ouvi algo estranho. Um barulho semelhante à madeira batendo no piso. Um som meio choco e amortecido. Então reconheci. Eram passos e vinham em minha direção. Só podia ser a atendente e, pela intensidade do barulho, se aproximava do corredor em que eu estava. Parei frente à porta mais próxima e comecei a digitar todas as senhas que conhecia, mas nenhuma dava certo. “Esta porta parece não estar aqui no futuro”, imaginei justificando a senha não funcionar. Assustado, notei que o barulho parou logo no início do corredor. No momento, senti um balde d’água gelada ser despejado em mim.

Fechei os olhos e fiquei assim por alguns segundos até que ouvi uma respiração forçada misturada com um resmungar. Olhei de canto e vi a atendente parada com a cabeça baixa. Nervosa, manuseava com dificuldade alguns documentos. Escorregavam por suas mãos. Percebi também que não fui visto nem ouvido. Notei pelos fones de ouvido e pelo gingado que seu corpo trazia. Suspirei aliviado. Já imaginei o que pensaria ao se deparar comigo agachado tentando inserir uma senha e com cara de gatuno. Com certeza chamaria o senhor Fred.

Olhei de volta pro painel da porta e, como que num sorteio, continuei a digitar, mas ainda não funcionava. Então ela iniciou sua caminhada e depois olhou pra frente. Não sei se me viu. Somente que a porta se abriu me jogando pra dentro daquela sala escura. Acho que, se ela tivesse me visto, eu saberia. Do lado de dentro daquele ambiente escuro e encostado na parede ao lado da porta, fechada, respirei forte. Senti o frio gelado das grades de uma cadeia. Olhei pra frente. Na penumbra dava pra ver uma mesa diferente. Acionei o interruptor de luz e vi ao lado uma moldura com o nome: Dra. Geena Kirsten. Não tive dúvidas de que era a sala de Geena. Realmente no futuro aquela sala não existia ou fora pra outro local. Fiquei deslumbrado com os desenhos, gráficos e prospectos que havia ali. “Geena é uma cientista!”, pensei intrigado. No computador de última geração, alguns post-its colados ao lado do monitor mostravam números variados, equações distintas e complexas. “Não sabia que era tão ligada à ciência”, murmurei.

Desejei sair, mas o display da porta havia apagado, portanto a senha se perdera. “Droga!!”, murmurei pensando ter ficado preso ali. Mas, ao reparar, notei que a porta não se fechara por completo, ficando apenas encostada. Pra que não se trancasse, coloquei um pequeno calço e voltei a atenção pro mistério contido naquela sala. Com a curiosidade aflorada, fui mais além e liguei o computador. Não pediu senha. Fiquei intrigado, mas desconsiderei. Qual foi minha surpresa quando me deparei com diversos prospectos. Falavam de como manipular o tempo.

No canto superior direito da tela, um ícone fisgou meus olhos. Um triângulo isósceles se destacava. Cliquei nele. Apareceu uma enormidade de fórmulas e um texto com um gráfico no qual estava escrito: “Retorno Seguro”. Tudo sobre como voltar ao passado sem causar sérias alterações no futuro. Ainda intrigado com aquilo, ouvi outra vez o som de passos no corredor. Intuí que a atendente retornava. Esperei ela passar. Desliguei tudo e saí. Olhei pro relógio e vi que o senhor Fred voltaria antes que terminasse a troca dos “Compostos”. Aquele tempo em que fiquei lá interferiu no planejado. Tinha que encontrar uma saída. Precisava ser rápido senão tudo iria por água abaixo.

Preciso atrasá-lo, mas como?”, pensei afoito. Uma ideia surgiu como que do nada. Fui até o setor onde o senhor Fred estava. Passando pela porta, cuidadoso, o vi terminando de organizar umas caixas. A certa distância, uma porta larga mostrava do lado de fora algumas latas que pareciam estar vazias. Com destreza desconhecida, mirei e joguei um rolo de fita crepe, encontrado numa prateleira próxima. O senhor, assustado com o barulho, colocou a mão no cabo do revólver que trazia na cintura e foi até lá conferir. Enquanto isso, desorganizei algumas das caixas e saí rápido. No caminho, destranquei algumas portas com o intuito, também, de atrasá-lo. Depois segui pra cumprir, por fim, minha missão.

Com passos silenciosos, entrei na sala esperada e tive outra surpresa. Percebi um laboratório sofisticado. Possuía equipamentos de última geração. Pelo que via eram muitos projetos que Cléo elaborava. “Ela era o coração do Laboratório Khinnyss. Geena planejava, e Cléo executava”, sussurrei comendo aquele lugar com os olhos.

Ainda maravilhado, procurei pelo frasco do “Composto” pra que fosse trocado pelo que estava em meu bolso. Depois de muito procurar, encontrei um em meio a algumas anotações datadas do próximo dia. Intuí ser o frasco correto, mas, ao me aproximar desajeitado, tropecei. Num total desequilíbrio, atingi a quina da mesa e aconteceu o pior. O frasco que eu tinha preparado caiu, e o líquido vermelho róseo se espalhou pelo chão. A frustração foi grande. Outra vez senti algo congelar minhas ideias. “Que desastrado!!”, sussurrei desejando uma autoflagelação. Com as mãos na cabeça, tentava pensar em algo que pudesse solucionar aquilo. Não dava tempo de preparar outro, mesmo tendo todos os ingredientes a meu dispor.

Então uma solução surgiu enquanto limpava a sujeira. Precisava localizar a fórmula que Cléo utilizava e substituir pela modificada, que, por certo, se encontrava enraizada em minha memória. Adicionei água pra desestabilizar o composto desenvolvido por ela. Assim teria de preparar outro com a fórmula que estaria no computador. Só então reparei que o computador principal era antigo. Uma sala toda moderna e um sistema controlado por uma máquina desatualizada. Estranhei. Também não pediu senha. Foi fácil localizar o arquivo. Ela também o denominava por C.P.M. Fiz as alterações necessárias e, ao fechar o programa, ouvi um som de porta se fechando. O senhor Fred estava conferindo as salas que eu tinha aberto. Em pouco tempo ele estaria no depósito de insumos e não me encontraria lá, óbvio.

Fechei os programas e dei um desligar no computador, mas o dinossauro não queria parar de trabalhar. Já não sabia o que fazer e em instantes outro barulho de porta se fechando forçou meu fôlego. Vendo que aquela máquina jurássica não desligava, meti a mão na tecla Power obrigando-a a se desligar. Fiquei temeroso pensando se poderia ter causado alguma avaria no sistema, mas precisava sair o mais rápido possível…

CONTINUA…

Antonio Sérgio da Silva (Sérgio Thorres), nasceu em Itaúna, Minas Gerais. Possui formação técnica em “Eletroeletrônica” e seu gosto por “literatura fantástica e ficção científica” liberou seu lado criativo mostrando que não há idade para se começar algo. Ao longo de seus 51 anos, há dez como amante da escrita, vive em meio a escrita, tendo como princípio a saga “Filhos de Lhuxxor” (ficção científica). Participante da coletânea “Hipérboles“, (Editora Ramos).

Dias passados – Parte I

Sinopse: Num futuro não muito distante, após a colonização de Marte, um homem busca se reencontrar num mundo devastado por um governo opressor. Em meio a um drama de incertezas e a fragilidade de sua natureza, luta contra sua própria consciência diante de um amor impossível.

Toni Ramos Gonçalves

Sonhei que um homem gritava comigo. Não sei bem o que exatamente, mas havia toda uma situação que o levava a perder a cabeça e começar a gritar. O grito no final das contas era um trovão seco e abafado que me despertou. Me vi sentado num canto da sala.

Passei a noite em vigília e, toda vez que começava a cochilar, todos os barulhos me faziam acordar. Devo ter adormecido antes de o dia raiar. Ainda com os olhos semicerrados, vi o pequeno Juninho observando pela janela.

Fui até ele e lhe afaguei a cabecinha, chamando sua atenção. Ao me ver, ele sorriu. Tem o mesmo olhar inocente, incauto e meigo de sua mãe. Ele aponta o dedinho para a janela e gesticula a mão diante da boca.

– Cachorro? – pergunto, imitando o gesto e olhando na direção para ver se avisto o animal.

O vento fazia a chuva bater contra a vidraça e não vi nada nos arredores. Juninho encolhe os ombros. Fica triste por eu não ter visto o cão.

Alice, sua mãe, dorme noutro quarto, sobre um papelão. É o terceiro dia consecutivo de chuvas bíblicas. A enchente do rio impossibilitou nossa travessia para o outro lado, rumo ao norte.  Refugiamo-nos nas ruínas de uma pequena construção. Um lado dela está sem teto, e tudo de útil que havia nela foi saqueado.

Juninho olha para mim e gesticula novamente com a mão na direção do estômago. Ele tem fome. Pego minha mochila e busco por algum alimento. Ele aponta a lata de atum. Percebo a euforia nos seus olhos. É um menino esperto para seus seis anos de idade. Quer ser astronauta e sonha pilotar uma nave até Marte. A vida é boa quando se tem sonhos. Sentamos no chão, lado a lado, enquanto se alimenta. Lembro-me de ter olhado fixamente por alguns minutos para além da janela, dos morros e das nuvens negras no horizonte, e de me ver nos primeiros dias quando o conheci e o levava ao parquinho para brincar, antes de tudo aquilo acontecer.

Juninho cutuca meu joelho. Faz um gesto no rosto se referindo à minha barba, que crescera com os meses. Imita um Papai Noel, ali mesmo sentado. Respondo com outros gestos, explicando-lhe que ela não está branca. Faz uma careta e aponta alguns fios de cabelos grisalhos na lateral de minha cabeça. Então, gargalha em completo silêncio. 

Alice aparece na porta. Juninho levanta-se e corre para abraçá-la. Ela recusa-se a olhar nos meus olhos naquele instante. Ontem, pouco antes do anoitecer, após conferir o perímetro, ao passar diante da janela do lado externo, detive-me quando a vi. Estava de perfil, segurando um pedaço de espelho quebrado e contemplava, encantada, os próprios contornos e perfeições de seu corpo nu. Ao me ver, cobriu o corpo rapidamente com as mãos, e me afastei lentamente.

Ela senta-se no chão; Juninho, ao meio. Procura algo para se alimentar na minha mochila. Ela me fita com um olhar preocupado e interrogativo.

– Ontem, vi umas casas depois da montanha. Deve ser um povoado. – disse tentando tranquilizá-la – Daqui a pouco vou lá verificar se encontro algum alimento.

É meu dever mantê-los em segurança. Prometi isso ao meu irmão.

***

Lembro-me de sentir o cano frio do revólver Taurus 38 na minha boca, os olhos fechados, a respiração ofegante, o dedo imóvel diante do gatilho. O celular vibrava incessantemente sobre a mesa à minha frente. Por fim, deixei a arma de lado e peguei o aparelho. Era meu irmão Jaime. Ao falar rapidamente, pediu-me que fosse ao seu encontro.

Eram quase dez horas da noite quando cheguei ao Aeroporto Santos Dummont. Naquela época, eu residia no Rio de Janeiro. Meu irmão Jaime fazia parte do grupo de bioquímicos da BIFROST Corporations, empresa responsável pela colonização de Marte em 2.032 e que agora investia em cidades privatizadas. Fora convocado urgentemente para se apresentar a uma das sedes, no sul do País.

Fazia anos que não o via pessoalmente. As raras vezes em que nos comunicamos depois de adultos foi por chamada de vídeo e na última delas eu ainda me recuperava de um acidente, no hospital. Ao vê-lo de terno, cabelos grisalhos, alto como eu e ainda em boa forma física, percebi em seu rosto o cansaço. 

Fomos para uma lanchonete onde serviam um excelente café. Acomodamo-nos numa mesa no canto. Ele não tinha muito tempo antes de embarcar e foi diretamente ao assunto.

– Quero que você cuide da segurança de minha família por uns dias. – disse enquanto sorvia o café aos goles. – Ao ficar com Alice e Juninho, você me trará uma grande tranquilidade. É um favor que você me faz.

– Por quanto tempo vou precisar ficar com eles? – perguntei surpreso diante do pedido.

Jaime franziu a testa. Olhou para a TV fixada na parede do estabelecimento. Não conseguimos ouvir o áudio, mas a legenda citava mais um ataque dos rebeldes a um armazém de suprimentos do Governo. Em resposta, os militares bombardearam a cidade, com o apoio de helicópteros e blindados à procura dos líderes da rebelião, deixando um rastro de sangue, com dezenas de mortos. Imagens mostravam os sobreviventes desesperados fugindo pelas ruas.

– Não sei dizer. Talvez duas ou três semanas. – respondeu voltando os olhos para mim – A BIFROST espera fechar um acordo com o Governo para construir as cidades privatizadas e as colônias. Depois de colonizar Marte, é a empresa mais conceituada pelos Governos. Prefiro deixá-los aos seus cuidados até que eu me restabeleça. E eu só confio em você.

Na verdade, nem eu confiava mais em mim desde o acidente. Eu era segurança contratado pelo IBAMA para proteger cientistas numa base de pesquisas da OMS e ONU na Amazônia, onde cientistas de todo o mundo trabalhavam em busca de uma cura para combater uma nova cepa da Sars-CoV-2. Colonizamos Marte e não conseguimos combater um vírus. A doença vinha há mais de trinta anos dizimando boa parte da população mundial. A emboscada aconteceu quando um grupo de rebeldes emboscou nosso comboio, com o objetivo de sequestrar cientistas para criação de armas químicas. O caminhão que nos transportava explodiu. Só fui acordar num quarto de hospital dias depois.

– Como está sua adaptação à prótese?

Apoiei meu braço esquerdo sobre a mesa, retirei a luva e fiz movimentos com os dedos artificiais.

– Meu filho Juninho vai adorar ver isso. É um menino alegre e inteligente. – sorriu enquanto bebia o último gole de café.

Até hoje não agradeci meu irmão por salvar minha vida.

***

O mundo não é mais um lugar para ficar sozinho e coisas ruins acontecem a todo o momento. Por isso, deixo minha melhor arma com Alice, antes de sair à procura de suprimentos. Sem querer, toco levemente sua mão. Ela sorri para mim. Algo está diferente. Olho para ela e me detenho em certos detalhes. Agora é a vez da boca vermelha, de lábios cheios, de firme desenho. Beijo-a conscientemente na minha mente.

Juninho me puxa chamando minha atenção. Com gestos imita um robô e aponta para meu braço mecânico. Adora fazer palhaçadas. Sorrio e prometo-lhe que vou me cuidar. Depois, enquanto ando lá fora, debaixo de mais um temporal, a angústia sufoca-me de vez. Não esqueço a visão da noite anterior. Fazia um bom tempo que me sentia atraído por Alice. Talvez tenha me apaixonado desde o primeiro momento em que a conheci. Via-me enredado numa situação da qual não podia libertar-me. Mas não devia sentir-me culpado. Não havia contribuído para meu martírio. Queria escapar e não sabia como. Tinha fome e sede, queria, desejava, amava a mulher de meu irmão.

CONTINUA

Foto: Pexels

Toni Ramos Gonçalves nasceu em Itaúna-MG, no ano de 1971. Escritor contista e editor estreou na literatura com a novela O Último pôr do sol, em 1996. Autor de quatro livros foi vencedor de vários prêmios literários pelo Brasil. Participou de inúmeras coletâneas como coautor e organizador. Foi fundador e o primeiro presidente da Academia Itaunense de Letras, fundada em 2015. Recebeu o Troféu Capitão-Médico João Guimarães Rosa em 2019, em Belo Horizonte – MG.

A última chance – Parte I

Sérgio Thorres

Sinopse: Em suas idas e vindas J.P deseja consertar algo que supostamente saiu errado e assim salvar Cléo, mesmo que lhe custe a própria vida. Para que isto aconteça conta com a ajuda inusitada de Geena, porém, só resta uma única chance…

Antes, olhei pro jornal que ficava ao lado do sistema de controle. Toda vez que via aquela notícia sentia um aperto no peito. Ainda não conseguia acreditar que Cleonice estivesse em coma. Procurei uma posição confortável na poltrona, me conectei aos equipamentos e fechei os olhos até sentir uma picada no pescoço. Ainda temia que o procedimento de “regressão de memórias” me levasse pra outro lugar. Ouvindo o áudio que continha a data programada e sentindo um ardido gelado no pescoço, era difícil não fechar os olhos…

…Então acordei.

O gosto da derrota, por certo, me assombrava. Ao abrir os olhos, percebi que nada havia mudado. Se bem que meu retorno era apenas de dois anos. Em teoria, eu era o mesmo. Meu quarto também. Pelo menos o teto. Depois dos trinta, dois anos não faz muita diferença. Olhei pros lados, e tudo parecia normal, a não ser pela temperatura. Estava frio. E muito! Eu não tinha praticamente nenhuma lembrança de ter nevado naquele dia.

Ao reparar a cama, percebi algo que confirmava meu retorno. Ela era menor. Não tinha encontrado minha alma gêmea. Foi aí que a ficha caiu. Lembranças de que Cleonice aguardava num leito de hospital vieram fortes. O propósito de estar ali me veio como um solavanco na memória. Necessitava trocar os “Compostos”. O Laboratório Khinnyss ficava perto, e a troca deveria ser feita quando não houvesse ninguém lá. Fui orientado a seguir minha agenda à risca pra que não provocasse alterações no futuro. Sabia que não teria outra chance de salvar Cléo, e a mínima esperança de sucesso me alegrava, tanto que o frio já não me incomodava.

Enquanto tomava café, o telefone tocou. Um paciente afoito desejava descarregar suas mazelas em mim. Esse foi um desconforto que, às 7:30 da manhã, tive que resolver. Como sempre calmo, resolvi a situação. Um percalço normal pra quem escolheu a Neuropsicologia como profissão. Fiquei orgulhoso quando, ao montar meu consultório, vi meu nome na porta: “J.P.Vermont”. Outra confirmação de que voltara no tempo. Lembrei-me do paciente e de como resolver seu problema.

No caminho até o consultório, não percebi nada de anormal, somente que algumas lembranças referentes ao dia sumiram. Não me lembrava da nevasca, que era rara na região. O trânsito se arrastava, mas fluía bem. Aquela manhã de atendimentos foi tranquila. A cada paciente atendido a memória me ofertava uma solução como num passe de mágica.

Na hora do almoço, preparei o Composto Polarizador de Memórias (CPM) modificado. Enquanto manuseava os frascos e tubos de ensaio, lembranças das vezes que havia voltado e da beleza contagiante que Cléo emanava, quando jovem, me rondavam. A ansiedade em vê-la adulta e com saúde me angustiava. Por pouco não saí desembestado à sua procura. Acho que meu antigo estado depressivo rondava forte. Geena estava certa quando disse que o “Composto” poderia afetar meu cérebro. As lembranças vinham e iam numa velocidade incrível. Quase que não consegui dosar o preparo.

A tarde de atendimentos foi tranquila e, por sorte ou obra do destino, as duas últimas consultas foram desmarcadas. Fiquei alegre. Surgiu a chance de rever minha querida Cléo. Foi aí que a secretária me lembrou de um compromisso às 17 horas. Tinha que conferir a possível compra de um terreno onde seria construído o novo consultório. Era perto do centro da cidade. Agora encarava uma situação complicada. Precisava resolver o contrato de compra ou ver Cleonice. Um dilema. Um obstáculo. Não sabia como resolver. Se não seguisse a agenda à risca, poderia causar alguma alteração ruim no futuro. Então que caminho seguir? Como fazer duas coisas ao mesmo tempo? Pensei em ir mais cedo e resolver o contrato. Assim sobraria tempo pra cumprir a missão. Foi o que fiz.

O trânsito naquele momento, caótico por causa da nevasca que agora se mostrava inimiga, queria a todo custo me impedir de prosseguir. Fiquei quase uma hora entre os carros. Na primeira chance, e irado, dei meia volta e encostei na primeira vaga que vi. Decidi que, se o terreno tivesse que ser meu, o destino daria um jeito. Ainda parado e convicto, uma lembrança como que explodiu na minha cabeça. Cheguei a ficar meio atordoado. “Por causa da nevasca não consegui fechar o contrato”, ecoou a lembrança, o que comprovou o fato de o consultório estar no mesmo lugar no futuro. Com sorriso fraco, segui pro Laboratório Khinnyss.

Compreendi que o tempo controlava a situação. Fiquei alegre, pois percebi que estava no lugar certo e na hora certa. Minutos depois adentrava a recepção do Laboratório. Faltavam 15 minutos para as 17 horas. Estavam em final de expediente. Procurei a doutora Geena apresentando-me como um fornecedor de insumos. Enquanto a atendente foi chamá-la, segui o plano e fui pro toalete. Olhando fixamente no espelho, perdi alguns minutos tentando compreender aquilo tudo.

Nisso chegou a atendente mais a doutora e outra mulher. Eu, que saía do toalete, vi as duas acompanharem a atendente. Fiquei ao lado de uma folhagem. Geena apareceu, com um corte de cabelo nada comum, e mais atrás se achegava Cleonice. Minha querida e futura esposa Cléo! Há dias não a via tão bem. Bela, como sempre. Deu pra sentir seu perfume, mesmo à distância. Desejei chegar perto, mas ela não me conhecia, ainda. Geena, apesar do cabelo, possuía a mesma aparência. O tempo se mostrava parceiro.

Notei a atendente se explicar por ter anunciado alguém que não estava lá naquele momento. “Não posso ser visto por elas”, pensei. Tinha que encontrar um meio de entrar sem que percebessem. Lembrei-me do plano e aguardei que fossem embora. Percebi que Geena não perdia nenhum detalhe. Seu olhar estava fixo à sua volta. Procurava algo que desse suporte ao que a atendente acabara de dizer. Cheguei a pensar que fosse a mesma que, após o treinamento, me enviou pra tentar salvar Cléo. Vi que nela havia uma certeza de que aquilo funcionaria. Dava pra perceber que aquela que via sair entre risos ao lado de Cleonice o fazia pra encobrir algo. Só não sabia o quê…

Quando ouvi o carro delas saírem, apareci pra atendente com cara de otário, de quem perdeu a hora, de quem a deixou numa situação complicada frente à doutora. “O senhor não foi embora?”, falou logo que me viu. Senti em seu olhar vontade de me espancar, mas por ser educada seria incapaz de tamanha indelicadeza. Falei da doutora, e ela disse que acabara de sair, como se eu não soubesse! Desejei conversar com o responsável pelo setor de estoque. “Preciso que a questão seja resolvida, senão o fornecimento será suspenso”, afirmei sério.

Sem ter saída, entrou em contato com o responsável que se dispôs a me receber. O nome dele era Fred. Senhor Fred. Em minutos ele se apresentou com sua cara de mau e me conduziu pra sala de insumos. No caminho não cansava de me reparar. Parecia procurar algo. A sala ficava no corredor de dentro a três portas da sala que Cleonice trabalhava, onde eu deveria substituir os “Compostos”. Enquanto analisava embalagem por embalagem, notei que o senhor Fred estava tenso. Olhava pro relógio seguidas vezes. Sabia que ele tinha algo importante a fazer. Então o orientei a me deixar trancado ali até que resolvesse suas questões. Por certo imaginou que eu não pudesse sair. “A porta é trancada eletronicamente. Com certeza eu não conheço a senha!”, falei, olhando-o fixamente.

Viu que eu estava certo. Fiquei ali trancado, e ele foi resolver suas pendências…

CONTINUA

Antonio Sérgio da Silva (Sérgio Thorres), nasceu em Itaúna, Minas Gerais.Possui formação técnica em “Eletroeletrônica” e seu gosto por “literatura fantástica e ficção científica” liberou seu lado criativo mostrando que não há idade para se começar algo. Ao longo de seus 51 anos, há dez como amante da escrita, vive em meio a escrita, tendo como princípio a saga “Filhos de Lhuxxor” (ficção científica). Participante da coletânea “Hipérboles”, (Editora Ramos).

BITA E A JACULATÓRIA

Almir Zarfeg

Nestes tempos de coronavírus todo cuidado é pouco. Como o vírus é invisível, todos precisam se prevenir usando máscara, abusando do álcool em gel, fazendo higienização das mãos, cumprindo distanciamento social e, também, correndo pros pontos de vacinação quando a vacina estiver ao alcance do braço. Por enquanto, a vacinação em massa está longe de acontecer. Até agora (05/05/2021), 33.404.333 de pessoas receberam ao menos uma dose do imunizante, o que corresponde a 15,77% da população brasileira. Como o Brasil possui cerca de 210 milhões de habitantes, basta fazer as contas.

Bita de Itanhém tem feito tudo isso e muito mais. Além de guardar os protocolos de segurança, propostos pelas autoridades sanitárias, Bitinha tem apelado para as orações, preces e rezas como forma de prevenção nestes tempos de pandemia. Outro dia, ele embrenhou no interior de Batinga – distrito de Itanhém onde vive sozinho – à procura de uma benzedeira…

Ele queria porque queria ser benzido com ramos de guiné, alecrim ou arruda por uma benzedeira de verdade, daquelas capazes de fechar o corpo da gente contra olho gordo, quebranto e, por que não?, Covid-19, conforme Bita ouviu num sonho que tivera outra noite e que, no fundo, estava mais para pesadelo do que para revelação.

Para quem não sabe ou não se lembra mais: uma sessão de benzimento funciona com a pessoa diante da benzedeira, que vai passando os ramos de erva sobre a cabeça do abençoado, enquanto faz as orações, o sinal da cruz, repetindo palavras e resmungos incompreensíveis. Infelizmente, ao contrário do coronavírus, as benzedeiras estão extintas ou em processo de desaparecimento. 

Sem benzedeira, Bita continua observando as medidas restritivas ficando em casa em vez de sair à rua, priorizando a solitude do lar em vez da aglomeração das pracinhas da localidade. Especialmente, não perde a oportunidade de esculhambar o presidente da República, o Coiso, apontado como maior incentivador do coronavírus, uma vez que não usa máscara, aglomera em eventos e apoia o uso de substâncias ineficazes contra a Covid – como a cloroquina –, dando um péssimo exemplo para a população.

Sempre atento a tudo e desconfiado até da brisa mais inofensiva é que Bita, por acaso, ficou sabendo dos efeitos benéficos das jaculatórias. Ao contrário do que o leitor de mente suja pode estar pensando – elas são uma forma de oração reduzida (não de infinitivo ou gerúndio) e curta, como estas: “Meu Deus, meu Pai”; “Meu Jesus, Meu Tudo”. Jaculatórias são parentes das ladainhas, lembrando que estas funcionam como uma súplica ou louvor que se repete durante uma oração ou terço.

Bita gostou tanto da ideia que, tão logo, passou a colocá-la em prática, providenciando uma jaculatória, devidamente adaptada, para se sentir bem protegido contra os desafios impostos pela pandemia. Porque era preciso estar atento e forte para fazer frente ao bichinho odiento. Finalmente ficou pronta: “Louvado seja o vírus do amor!”

Agora, além de utilizar o kit anti-Covid, ele não perde a oportunidade de soltar um “Louvado seja o vírus do amor!”, quando lhe dá na telha.

Alguns de vocês devem se recordar do filme “Shaolin” de 2011, dirigido por Benny Chan, estrelado por Andy Lau e Nicholas Tse, e contando com a participação de Jackie Chan, no qual os mestres e monges não se cansavam de repetir: “Louvado seja Buda!” De tão repetida, a frase acabou criticada pelo público cristão mais, digamos, fundamentalista. Nas salas de projeção não era raro que alguém reagisse assim: “Louvado seja Cristo!” Mas não havia muita coisa para se fazer, não é mesmo?

Pois bem, Bita não escolhe hora nem local para dizer a sua jaculatória de estimação. Se topar com alguém sem a máscara pelo caminho, mais que rapidamente, repete a oração curta. Caso vir ou ouvir, pela tevê ou pelo rádio, uma notícia sobre a pandemia, o coronavírus, o número de contaminados (sintomáticos ou assintomáticos) ou de mortos – ou detalhes sobre o desdobramento da vacinação, ele não pensa duas vezes: Louvado seja o vírus do amor!

Durante os pronunciamentos e/ou falas do presidente Coiso, Bita vem com sua ladainha especial e dispara contra a autoridade. Mune-se da arma fatal (e sagrada) para detonar o vírus do ódio e, também, os inimigos da ciência e os seguidores do negacionismo.

― Aqui para vocês, ó! – Ameaça com o dedo do meio em riste e, em seguida, dispara: Louvado seja o vírus do amor!

No mês de abril de 2021, quando o Brasil bateu todos os recordes sucessivos de morte pela Covid-19, a jaculatória bitiana foi repetida à exaustão, sempre com muita fé e desejo de vingança. Vingança contra o vírus do mal. Vingança contra os demagogos que, de maneira criminosa, manipulam parte da opinião pública a ir de encontro às medidas de segurança, à vacinação em massa e contra, sobretudo, o fascismo destes tempos tenebrosos.

Se o segredo do estilo é repetir muitas vezes palavras e textos, o sucesso de uma jaculatória se dá de maneira parecida – repetidamente. Na repetição sistemática e devocional é que ela ganha força e razão de ser, tornando-se um mantra ou uma ladainha bem-sucedida. Claro que o êxito da jaculatória em questão depende de muita paciência, persistência e disciplina. Em matéria de paciência Bita não é muito exemplar. Ele se destaca mais nos itens persistência e disciplina. Mas está disposto a ir até o fim, apegando-se à prece preferida até que o vírus seja derrotado e a pandemia varrida da face da terra. Para isso, a vacinação em massa é uma questão de vida ou morte.

― Vacina para todos e todas! Vacina sim! Vacina já! E louvado seja o vírus do amor!

Quando o Brasil atingiu 260 mil mortes por Covid e o Coiso veio a público chamar de idiotas aqueles que pressionavam por mais doses e, todo arrogante, vociferou um “chega de mimimi”, fazendo pouco caso das vítimas e do sofrimento das famílias enlutadas, Bita parou de repente com a jaculatória. Continuava utilizando máscara (inclusive em casa), álcool em gel e lavando as mãos com frequência exagerada, mas assumiu uma postura cabisbaixa e inconformada. Movimentava a cabeça para um lado e pro outro para expressar sua chateação.

Teria se cansado da reza e, decepcionado, resolvera deixar a jaculatória de lado? Teria optado pelo silêncio e pela resignação que, às vezes, são tão poderosos quanto a oração de São Francisco ou um sermão do Padre Vieira? Não se sabe. Estaria pensando em substituir a jaculatória por outra forma de expressão, como o poema, a canção ou o réquiem? Teria tido algum sonho com alguma mensagem significativa ou mística? Muitas perguntas, poucas respostas.

Na noite do dia 6 de abril de 2021, uma terça-feira macabra, quando o Brasil bateu o recorde de 4.211 mortes por Covid-19 em 24h, Bita foi dormir mais cedo do que de costume. Sentia-se muito incomodado, mas aparentemente calmo, de sorte que pegou no sono em dois tempos e sonhou maravilhas e jaculou bastante…

No dia seguinte, ele acordou cheio de disposição e a primeira coisa de que se lembrou – como se tivesse algo muito importante para ser lembrado naquela manhã – foi dizer para si mesmo e para quem pudesse ouvi-lo: “Louvado seja o vírus do amor!”

Dessa vez era como se a frase dita carregasse um gostinho diferenciado e especial, o que levantou suspeitas de que o sonho da véspera tivesse sido, no mínimo, inspirador ou espetacular. Teria sonhado com o Anjo Gabriel ou com a Virgem Maria? Com certeza não teria sido com o Coiso e muito menos com a Coisa!

Passou as próximas seis horas repetindo, obsessivamente, a jaculatória inseparável. A obsessão – já conhecida da vizinhança e reveladora de traços da personalidade de Bita – era creditada à pandemia que, muito mais que perturbar o juízo de alguns, havia ceifado a vida de milhares de pessoas. Pobre Brasil, terrível Coronavírus.

Se, de perto, todo mundo é um tanto quanto anormal, quem escutasse com cuidado a jaculatória de Bita, àquela altura dos acontecimentos, ouviria, em vez de “Louvado seja”, um “Maldito seja”, recitado por um brasileiro que, com anticorpos no organismo, é um forte. E os fortes também querem ser felizes.

Tudo nos leva a crer que Bita de Itanhém teria trocado a jaculatória (bem) por uma praga ou imprecação (mal) com a esperança – que é sempre a última a morrer – de conseguir algum alívio espiritual para sua dor de existir na pandemia. Seria a última tentativa? Talvez. Era um homem de pouca fé? Tomara.

De todo modo, senhoras e senhores, repitamos com o pequeno (e grande) brasileiro: “MALDITO SEJA O VÍRUS DO ÓDIO!”

Agora, por nossa conta e risco, digamos vermelhos de indignação:

― Malditos sejam todos os vermes, humanos ou não, cúmplices desta tragédia brasileira, luso-brasileira e global, chamada Covid-19! Amém!

Foto enviada pelo autor.

Vivo fosse, Frans Krajcberg faria 100 anos nesta segunda-feira (12); museu ainda é promessa

Almir Zarfeg

Se fosse vivo, o fotógrafo, pintor, gravador e escultor Frans Krajcberg estaria completando 100 anos de vida hoje (12), pois nasceu em 12 de abril de 1921 em Kozienice, Polônia, na extinta União Soviética. Estudou engenharia e artes na Universidade de Leningrado. Depois, já na Alemanha, cursou a Academia de Artes de Stuttgart tendo Willi Baumeister, pintor alemão, como professor.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945), Frans perdeu toda sua família em um campo de concentração nazista. Conseguiu fugir para o Brasil em 48 para reconstruir sua vida e, também, se dedicar à arte de maneira integral. “Eu fugi do homem”, costumava declarar.

Aqui, ele se isolou na floresta paranaense para pintar e, em 51, participou da 1ª Bienal Internacional de São Paulo. (Ele participaria de outras tantas bienais e mostras dentro e fora do Brasil.) Mudou-se para o Rio de Janeiro em 56 e, no ano seguinte, conseguiu a cidadania brasileira. Suas pinturas desse momento são marcadas pela abstração, nos tons ocre e cinza, com motivos naturais.  

Entre 58 e 64, Frans residiu em Paris e produziu uma gama de trabalhos – em papel japonês modulado sobre pedras e pintado a óleo e gauche – sempre tendo a natureza como motivação. Em Ibiza, em 59, ele produziu as primeiras “terras craqueladas”, que são relevos monocromáticos, com pigmentos extraídos de terras e minerais.

Em 64, o artista retornou ao Brasil e instalou seu ateliê numa caverna no pico da Cata Branca, em Minas Gerais, para se manter afastado das pessoas “como um animal machucado”. Nesse momento, abandonou as pinturas abstratas para esculpir pedras.

O saudoso Frans Krajcberg sendo entrevistado pelo poeta e jornalista Almir Zarfeg

Em 72, a convite do arquiteto José Zanine Caldas, trocou Minas pela Bahia e fixou moradia em Nova Viçosa, no extremo sul. Seu endereço era a Casa da Árvore no Sítio Natura, onde durante muitos anos assistiu ao nascer do sol com o inseparável boné na cabeça e a câmera fotográfica na mão, pronto para clicar a vegetação e trabalhar os troncos – queimados –, numa atitude em favor da vida e contra as agressões ao meio ambiente.

Além de Nova Viçosa, ele manteve um instituto com seu nome em Curitiba/PR e o Espace Krajcberg em Paris e seu prestígio se espalhou, cada vez mais, pelo mundo das artes plásticas, por causa de seu talento e originalidade, e pela sociedade nacional e internacional, por causa de sua militância em favor da natureza. Ao reaproveitar as árvores queimadas e calcinadas, transformando-as em arte pulsante, Frans fazia com que a natureza, renascida das cinzas, testemunhasse contra toda agressão ambiental: queimadas, desmatamento, exploração de minérios e a poluição de rios, solos e nascentes, a defesa das tartarugas, etc.

Bem antes de a ecologia virar tema constante dos debates e modismos, Frans mobilizara a todos com sua arte ecológica engajada, gritando em favor da natureza, denunciando os inimigos do meio ambiente com talento e coragem. Como cidadão do mundo e brasileiro, como cidadão baiano e nova-viçosense.

Muito antes do conceito de alteridade, desenvolvido por Emmanuel Lévinas, ganhar a admiração dos intelectuais sensíveis, Frans havia testemunhado a execução de milhares de judeus pelo nazismo – inclusive sua própria família. Mesmo assim, usou seu ativismo artístico e ambiental para promover o semelhante, o OUTRO e a vida no sentido amplo. A arte como catarse, empatia e libertação.

Quando morreu em 15 de novembro de 2017, aos 96 anos, no Rio de Janeiro, o artista já havia doado seu patrimônio artístico ao governo da Bahia que, em troca, se comprometeu a construir o Museu Artístico e Ecológico Frans Krajcberg, com dois prédios, para a manutenção das mil obras e, também, para a exposição desse legado à visitação pública.

Segundo o acordo – registrado em cartório – o museu seria instalado em Nova Viçosa e não em Salvador ou em alguma cidade da Região Metropolitana, como o diretor-geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), João Carlos de Oliveira, contra-argumentou. Isso mesmo. A obra poderá ser abortada em função da instabilidade apresentada pelo Sítio Natura, localizado numa área de mata atlântica suscetível à ação da umidade e dos insetos xilófagos!

Neste momento em que o saudoso Frans completaria seu 100º aniversário de nascimento, nosso grito é pela construção do tão esperado (e adiado) museu para proteção e preservação de sua obra de valor inestimável. Quanta morosidade! Que nossa impaciência artística continue sendo maior que nossa paciência burocrática!