LIMA BARRETO E O FEMINICÍDIO

PRECURSORES DA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA

PARTE 1

Toni Ramos Gonçalves*

Manifestante na Avenida Paulista em 2022 /Foto Roosevelt Cássio

Na semana do Dia Internacional da Mulher, é alarmante a notícia que a taxa de feminicídio no Brasil em 2022 foi uma das mais elevadas da história brasileira.

Criada em 2015, a Lei do Feminicídio não fez a violência doméstica e familiar recuar. O convívio por mais tempo em casa durante a Pandemia da Covid-19, o incentivo às armas de fogo, acrescido dos discursos de ódio na sociedade brasileira, contribuíram para agravar ainda mais os índices desta violência.

O feminicídio é um crime hediondo, com pena de 12 a 30 anos de reclusão.Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a taxa de casos no Brasil no primeiro semestre de 2022 foi de 699 assassinatos de mulheres. O mês de janeiro de 2023 já se tornou o mais violento para mulheres dos últimos seis anos, em alguns estados brasileiros.

Isso não acontece somente agora e sim ao longo da história brasileira. O escritor Lima Barreto (1881-1922), afrodescendente, é considerado o porta-voz dos excluídos, um retratista dos subúrbios e um crítico feroz da Velha República. Foi um dos precursores ao usar a Literatura como um elemento de resistência à marginalização social e educacional.

Em países que vieram de uma história de colonialismo e escravidão, é necessário que a Literatura tenha papel de uma arma de luta. Ela pode influenciar comportamentos humanos, no sentido de respeito e indiferença às pessoas e, até mesmo, de violação de seus direitos básicos.

No começo do século XX, Lima Barreto usou suas crônicas para críticas sociais, denunciando a violência doméstica, o feminicídio, e outros aspectos da sociedade brasileira, os quais persistem até hoje. Sua crônica Não as matem, escrita há mais de um século, em 1915, faz sua voz ecoar mais forte, pelo tempo, no combate ao racismo, ao machismo estrutural e outras inúmeras atrocidades contra a mulheres. Mas não basta apenas punir os criminosos, os agressores, mas reeducar a sociedade brasileira para o bom convívio e respeito entre os indivíduos. Para terminar trago o apelo de Lima Barreto ao fim de sua crônica:

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus! (BARRETO,1915)

Lima Barreto em sua última passagem pelo hospital em 1919

NÃO AS MATEM

Lima Barreto

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha, veio morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão.

O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa-vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.

O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido.

Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor.

Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

Vida urbana, 27-l-1915

Domínio Público

* Toni Ramos Gonçalves é escritor e ex-presidente da Academia Itaunense de Letras.

Graduando em Jornalismo e História.

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