Perdido

por Toni Ramos Gonçalves

O tempo nunca nos dá uma segunda chance”. Rodrigo Lacerda

Foto: Pexels

Após um forte clarão, ele se viu dentro de uma casa, apavorado atrás da porta, trancando-a. Pelo visor, conferiu se ainda era perseguido. Não viu ninguém.

Passou as costas das mãos sobre a testa suada, invadiu a residência por um corredor com fotos em molduras ovuladas, bem antigas penduradas na parede de lado a lado.

Uma mulher de cabelos grisalhos estava sentada no sofá, em frente ao televisor ligado, com um som quase inaudível. Olhou para ele de soslaio por detrás dos óculos de grau, ao vê-lo em pé na entrada da sala.

“Quem é você?”, perguntou o invasor.

A mulher não se apressou em responder.

Ele olhava de um lado para o outro, tentando reconhecer aquela casa. Ficou ali imóvel, aguardando uma explicação.

“Sente-se”, pediu a mulher apontando o outro sofá. “A novela está acabando. O Joel não demora, aliás, acabou de me ligar.”

Quem diabos seria o Joel?”, pensou.

A mulher falava pausadamente. Não aparentava medo ou ameaça. Sentou-se no sofá indicado, ela ainda concentrada na novela. Observou os móveis simples da casa, a estante, a cristaleira, os porta-retratos empoeirados.

Inúmeras dúvidas o atormentavam, mas não conseguia formular tantas perguntas. Sua última lembrança era de estar sentado num banco de uma praça, com um rapaz, que ele não reconhecia, a chamá-lo pelo nome. Sem recordar de nada, aproveitou o descuido do rapaz ao telefone e assustado saiu correndo, até chegar ali.

Sabia que vivia no interior, com os pais, ajudando nas roças. Mesmo com a vida difícil do campo, ele tinha um sonho. Pretendia um dia casar com a Mariazinha, uma linda galega de olhos cor de folhagem. Teria que trabalhar muito ainda, estudar, ir para cidade, arrumar um bom emprego, aí sim realizar seu desejo junto à bela moça.

Olhando para o lado, notou que a mulher o vigiava, dissimuladamente.

“Poderia me ajudar a voltar para casa?”, suplicou em voz baixa. “Não sei como cheguei a esta cidade, e como vim parar nesta casa. Um rapaz que me perseguia talvez tenha me sequestrado. Não sei, exatamente.”

“O rapaz seria o Joel?”, perguntou a mulher, com traços de beleza na juventude.

Ah, meu Deus, só podem ser cúmplices”, concluiu em sua mente confusa.

Levantou-se apavorado, tentando fugir novamente, os olhos girando de um lado para outro, buscando uma saída. Foi quando se deparou com uma imagem refletida num espelho, no fim do corredor.

Aproximou lentamente do reflexo, levando as mãos ao rosto. A pessoa refletida no espelho se parecia com seu pai: o cabelo todo branco, com uma moderada calvície e o rosto bem envelhecido.

Em sua mente lembrava que ainda ontem estava a correr de mãos dadas com sua amada pelos campos, o sol a brilhar num céu azul, a brisa a esvoaçar os cabelos dourados e radiantes de Mariazinha, o primeiro beijo. Ah! Aqueles lábios sedentos de amor.

Agora, diante o espelho, se via velho? Como era possível?

Voltou-se na direção contrária e se viu diante daquela senhora, de olhos cor de folhagem, com as sobrancelhas alteadas.

A mulher aproximou-se de braços abertos, abraçando-o, carinhosamente. O homem deixou-se afundar naquele cheiro desconhecido. Depois de longos minutos, a mulher com as duas mãos segurando-lhe o rosto, como de costume, o beijou na testa.

“José… José…”, disse sufocando o choro. Não escondia a tristeza, acentuada pelas rugas e por sua voz.

Diante seus olhos como num filme em alta rotação viu flashes de toda uma vida, trazendo-o de volta a realidade. As recordações desencadearam certo tremor.

“Meu Deus, Mariazinha, aconteceu de novo?”, disse aflito.

Nisso, a porta da casa se abriu e um rapaz mirrado, de olhos verdes, ofegante, adentrou-se na casa e deparou com o casal abraçado. Abaixou-se colocando as mãos no joelho, aliviado, buscando recuperar o fôlego antes de reclamar:

“Oh pai! Já disse que você não pode sair assim de perto de mim. É perigoso.”

“Tudo bem, Joel. Ele teve outra crise. O médico previu que com o tempo elas seriam mais frequentes.”, explicou Mariazinha enquanto o acomodava novamente no sofá.

A vida voltava a ter sentido para José.  Aquela era sua casa, sua Mariazinha e seu filho. Estava doente e lembrou-se da gravidade dela. Virou a cabeça na direção da janela entreaberta por cuja fresta penetrava a claridade do entardecer e seus olhos se encheram de lágrimas. Seu medo era da próxima crise e se encontrasse perdido uma vez mais ou talvez para sempre, na sua própria memória.

O carnaval itaunense

Por Toni Ramos Gonçalves

O palhaço Toni Ramos Gonçalves
Foto: fantasia de 2017 do autor

Eu adoro o carnaval.

Na minha infância, minha mãe me levava às matinês do Clube União e era a maior alegria, ver os pais e filhos divertindo no salão, todos sorrindo felizes ao som das marchinhas. Foi ali que tomei gosto pela festa. Na juventude, o carnaval era na Praça da Estação, a rapaziada eufórica ao redor do trio elétrico (sempre imóvel). Surgiam novos ritmos musicais como a Lambada e o Axé. Os cantores famosos da época eram Luís Caldas, Asa de Águia e muitos outros. Foi ali, aos quatorze anos que bebi a minha primeira cerveja. Tive que pedir alguém para me ensinar abri-la… Vê se pode? E foi também o primeiro porre da minha vida. Nem sei como cheguei em casa. Lembro-me de uma ex namorada me ver no meio da multidão e dizer assustada ao me puxar: você não se parece com meu antigo Toni. Dei um beijo nela e continuei seguindo a fileira.

À noite, o trio elétrico cessava as músicas e o desfile das escolas de samba e blocos caricatos iniciava na Rua Silva Jardim (Em frente ao Grande Hotel) em direção da Praça da Matriz, que na minha opinião sempre será o melhor local para eventos na cidade. Anos depois mudaram para Prainha (a Jove Soares, para desespero e pesadelo de quem mora na região) e eu já casado e com meus filhos pequenos, (um deles no colo), íamos curtir os desfiles das escolas de samba de Itaúna. Quem não se lembra do Zulu, Unidos da Ponte, Império da Vila. Cito também os blocos “Banda Suja”, “Cuecões”, “Sai da Reta”, “Pau de Gaiola”, “Eu sozinho” do Newton Regal, dentre outros. Na época eu curtia “assistir”, mas pensando melhor, era meio sem graça, pois apesar de todo glamour, o bom mesmo é foliar (suor e samba) na passarela.

E de repente o carnaval “acabou” (ou diminuiu) na cidade. Nada de escolas de samba, blocos (alguns ainda resistiram como o “Esplendor e Glória” e o “Pau de Gaiola”, sem dúvidas o melhor bloco da cidade).

O carnaval sempre foi considerado uma festa dos excessos. E tudo em excesso é ruim. Foram anos, aquela festa mixuruca, sem graça, sem “tesão”. A violência na cidade, às vezes comprometeu a sua realização. Certa vez, as vésperas do carnaval, bandidos invadiram o hospital com o intuito de finalizar uma tentativa de homicídio que se concretizou de forma cinematográfica. Houve uma tensão na cidade durante todo o carnaval, com poucos (e corajosos) foliões na rua.

Aconteceu que os foliões itaunenses começaram a buscar outras cidades para sua diversão, como Ouro Preto, Diamantina (as cidades históricas eram as preferidas). E foi assim durante um bom tempo até o carnaval ressurgir em novo formato: os blocos de abadá e trios elétricos (móveis, viu?) e teve até camarote (que gerou muitas discussões nas redes sociais). Importante é que reforçaram a segurança na avenida e a festa voltou revitalizada e nos anos seguintes surgiram novos blocos. Era bom demais para ser verdade. Aí, Itaúna começa a ser Itaúna.

Neste ano o carnaval itaunense dá sinais de “fraquejar” (como diria certo político). O bloco “Tomara que caia” desfilou na avenida e fez um sucesso estrondoso por um ou dois anos e de repente sumiu. Este ano o bloco “Deu no que deu”, anunciou sua ausência. E hoje fiquei sabendo que o “Vem que vem” também desistiu. Talvez, essa “fraquejada” seja devido à proximidade com a cidade de Belo Horizonte, onde o número assustador de cinco milhões de turistas invadem a capital durante os quatro dias de folia. Eu mesmo estive lá no ano passado. Promete.

Porém, quando penso que o bloco carnavalesco “Bola Preta” do Rio de janeiro, está há mais de cem anos alegrando o povo carioca, fico triste pela falta de persistência de nossos blocos. Sim, o custo de colocar um bloco na rua é alto, são as explicações dadas por eles. Bem, não sou economista… Mas, ao que parece o sucesso dos eventos itaunenses tem prazo de validade, só pode. Tudo aqui tende a desandar ou “fraquejar”.

Bem, vai ter aquela turma torcendo contra o carnaval, sempre tem (investir em educação, hospitais, etc…, mas, isso são outros quinhentos). Para quem gosta, estamos acostumados com esses argumentos. A verdade é que tentaram acabar com o carnaval e não conseguiram, e foram várias vezes. Não tem jeito. É a festa do povo, sempre será.

Eu, próximo de completar os cinquenta anos, ainda quero aproveitar o resto de juventude que me resta, pois a velhice chega para todo mundo, a não ser para quem já tem a alma velha.

Lembre-se: diversão (com moderação) faz parte da vida.

O conhecimento inútil

Por Maria Stela de Oliveira Gomes

Foto: Pixabay

A palavra Conhecimento origina-se do latim e significa: “Cognoscere”, que quer dizer o “ato de conhecer”, e é uma palavra com amplo significado, que possibilitar o ser humano a crescer em diversas áreas.

Para adquirirmos conhecimentos necessários para uma vida evolutiva precisamos de informações e de dados demonstrativos. A informação seria tudo aquilo que se codifica através da comunicação, verbal ou não. E dados não são somente agrupamentos de códigos e sim uma fonte descritiva de informação que permitirá ao ser humano um novo olhar de si, para si, e para o seu entorno, proporcionando-lhe uma vida ativa e coerente com as suas necessidades e do mundo a sua volta. O conhecimento, portanto, se dá através de informações inerentes ao que se deseja adquirir.

No entanto, podemos perceber que inúmeras informações que recebemos ao longo da vida são inúteis, não acrescentam nenhum conhecimento sólido e proveitoso. Sabemos de tudo a respeito do outro, de filmes fúteis, a manusear os mais modernos aparelhos, que nos conduzem a lugares longínquos.

A fofoca e a ostentação viraram uma onda. Os animais tornaram-se produtos de primeira necessidade. Estar fora delas é estar desconectado do mundo. Porém, estas informações não nos ajudam a tocar o coração do próximo, e a ser consciente a uma atitude humanitária. Tornamos-nos máquinas ou marionetes, em nome de uma evolução crescente que não permite a nossa sensibilidade aflorar.

Conhecemos pessoas com altos níveis de graduação e até com PHD, mas que não detém um conhecimento básico da história do nosso país e do mundo. Não possuem conhecimento sobre os grandes livros clássicos, das artes plásticas ou como se deu a evolução do mundo.

É comum notarmos que algumas pessoas estão além do seu tempo em informação tecnológico e digital, mas se esbarram em um mínimo detalhe quando são questionadas sobre um determinado assunto que não é da sua área.

Seria fundamental que as instituições escolares se preocupassem mais em passar um tipo de informação para os estudantes que lhes fosse fundamental. Pois o excesso de informações não lhes permite saber o que é bom para a sua vida, provocando-lhes um desinteresse pelos estudos.

 Deveriam focar na leitura dos livros clássicos, pois estes, sim, lhes darão uma ampla visão de mundo. E através da leitura desses livros pode-se fazer um comparativo da evolução da literatura, do vocabulário, do progresso de uma nação, da humanidade, e o enriquecimento pessoal.

Isso, sim, é um conhecimento que vale a pena. Através do compilamento de ideias o ser humano crescerá intelectualmente e terá mais facilidade para compreender uma palestra, uma propaganda comercial, letras de músicas e enredos de filmes.

Porém, o atropelo do dia a dia tem provocado uma correria total nas pessoas, não lhes permitindo ver o mundo como um grande veículo de informações, sendo necessário peneirar algumas delas, para absorver aqueles conhecimentos que nos podem ser úteis e nos engrandecer.

Ler mais é preciso!

O que é literatura – Parte 3

Por Ângelo Roberto*

Dada a privilegiada oportunidade concedida para falar de tão fascinante e enriquecedor tema, nesta fase inaugural partimos de uma introdução em linha conceitual sobre a temática.

“Literatura – sf 1- Arte de compor escritos, em prosa ou em verso, de acordo com determinados princípios teóricos ou práticos: …”

O conceito acima, extraído do Dicionário Online Michaelis Uol, embora não seja profunda e nem irrefutável definição para o que seria Literatura, alinha-se a este texto de apresentação, em que busca-se expor de forma a mais simplificada e acessível possível no que tange aos repertórios teóricos relacionados.

Então tomemos, a partir do verbete transcrito – em que caracteriza Literatura como uma arte, em prosa e verso, de acordo com determinados princípios teóricos ou práticos – alguns aspectos correlatos a esse sentido. Sendo tratada como arte, nos remete à sensibilidade, harmonia, à estética, à apurada técnica, à expressão criativa…

A sentença do verbete é seguida de um exemplo:

“Os tênues murmúrios suspirosos desdobravam-se em orquestra de baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores indefinidos eram já animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam política, artes, literatura e ciência”. (Aluísio Azevedo, em “O Cortiço”).

Neste fragmento, notamos a criteriosa e sugestiva escolha das palavras, o dedicado esmero para a construção do sentido e impacto do conteúdo narrado, dentre outros atributos da artística expressão do autor. São utilizadas técnicas de composição, figuras de linguagem, e recorre-se ao sentido conotativo das palavras. A construção e produto da Literatura, assim se distingue da expressão e escrita cotidiana; de documentos, mensagens em instrumentos comunicativos habituais, como em cartas oficiais, relatórios de serviço, petições judiciais, receitas e prescrições médicas, reportagens e matérias jornalísticas, nos documentos em geral. Nestas composições textuais, é utilizada predominantemente a linguagem objetiva, em sua acepção de dicionário, em sentido denotativo.

Para ilustrar esta distinção de sentidos de expressão da palavra, vejamos:

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barraco sem número. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro.

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. (Manoel Bandeira, “Libertinagem”)

Intitulado “Poema tirado de uma notícia de jornal” bem ilustra a diferença de expressão e sensações proporcionadas pela narração de uma pessoa que morre afogada.

Os versos que o compõe encaminha o leitor a saber e pensar sobre como “João Gostoso” vivia, o que gostava de fazer, quais suas alegrias, e ainda institui o suspense sobre qual seria o seu drama para atirar-se “na Lagoa Rodrigo de Freitas” e morrer afogado. Em sentido diametralmente oposto, as técnicas e objetivos jornalísticos exigem a expressão direta, clara e o mais correspondente ao de fato acontecido, ao veicular suas notícias.

Uma tradicional notícia sobre a morte de pessoa por afogamento, normalmente traria em linguagem objetiva: o local do afogamento, a descrição da vítima (a sua idade aproximada ou presumida), se socorrida antes do óbito, poderia contextualizar sobre a incidência de afogamentos no local e região. O mais significativo é que a matéria seria apresentada da maneira a mais neutra possível.

Assim, como buscou-se esclarecer, Literatura caracteriza-se pela expressão criativa pela linguagem, com composição e exposição artística de seus elementos constitutivos, na intenção e impacto na sensibilidade e subjetividade do leitor.

Nas oportunidades subsequentes, buscaremos falar mais sobre Literatura e temas correlatos.

Até a próxima!

*Ângelo Roberto é Bacharel em Língua Portuguesa pela UFMG. Escritor, poeta e acadêmico em Academias de Letras, regionais, nacionais e internacionais. Desde 2009 preside a Academia Matozinhense de Letras, Ciências e Artes (AMALETRAS).

Foto: Pexels

Saudade

por Antônio de Paula Apoli

Foto: Rodolfo Clix (Pexels)

A saudade é um sentimento universal, tem na acepção da palavra os mais diversos sentidos. Não tem uma tradução para outros povos, ou o mesmo sentido que tem para nós brasileiros. Não há uma tradução literal, mas é comum encontrar alguém no metrô de Londres pronunciando “I’m missing longing”, ou, no trem-bala de Tokio, ouvir-se quase um cântico “Suki deso”. Aqui, no Brasil, fala-se em matar a saudade, com certeza será um reencontro. Dizem que a saudade é mato, uma hipérbole. Por aqui, até comemoramos o dia da saudade, 30 de janeiro. A palavra tem origem no latim, superindui cupients. No nosso entendimento, saudade tem incontáveis definições, pode denotar apego, carinho, nostalgia, frustrações, solidão, perda… e por aí vai. Recorrente na prosa, na música, na poesia, mas principalmente nos corações. Todos nós ou já sentimos saudades ou ainda sentiremos. O preciosismo do sentimento Saudade remete-nos a lembranças das pessoas com as quais convivemos e depois se distanciaram. Saudade é aquele sentimento bom de se ter. Só a temos por quem nutrimos apreço e calorosas e impagáveis lembranças. É um sentimento zeloso que perdura por toda vida. Aqueles que deixam a casa dos familiares e vão para outra cidade, outro estado ou outro país sentem mais, pois se afastam das famílias, dos amigos e de todo seu cotidiano. Aqueles que ficam também são acometidos de pesares pelo distanciamento, sempre à espera da volta, ainda que apenas para uma visita. Sempre atentos ao ranger do portão, o tilintar da campainha.

Lembrar aproxima as pessoas por momentos, é como se estivessem ali bem próximos, sentindo aquela alegria, revivendo passagens de suas vidas de  momentos memoráveis.
O afastamento é quase sempre doído, mas muitos são necessários para realização de sonhos e projetos de vida, às vezes pelo término de um ciclo, também pelo crescimento espiritual e pessoal, encorajados por uma força grandiosa natural de cada ser humano.


Quando falo de saudade, recorro às mais inesquecíveis experiências vividas. São lembranças claras, normalizadas no projeto de Deus para comigo. Recordo de minha mãe, preparando os bolinhos de chuva de que eu tanto gostava. Do meu pai, já viúvo aos trinta e nove anos, com uma dedicação absoluta a nós, filhos. Quanta generosidade para conosco! Relembro o futebol no Bela Vista, as peripécias na fazenda, os irmãos, os amigos, a primeira namorada.


Saudade que materializa nossos pensamentos, que nos permite identificar as nossas origens e engrandece a alma. Saudade que escorre pelos olhos, embarga a voz, palpita o coração e vivifica o calor humano entre nós.


Saudade é o grito contido, o silêncio que habitualmente me faz refletir sobre as ausências.

O que é literatura? Parte 2

Por Paulo Siuves*

“O que é literatura?”,

“Bom, literatura é tudo o que se pode ler!”.

“Huumm! Não é bem assim…”

É lá vamos nós para mais um debate. Há textos que simplesmente não são literatura, por exemplo: bula de remédio; gastamos muito, muito tempo lendo aquelas letrinhas miudinhas, feitas para caber a missa em uma folha, frente e verso. Se tiver explicação mais técnica que bula, eu não quero conhecer. O pior das bulas são aquelas partes que diz, “…caso ocorra, há risco de morte!” Há laboratórios que não acham isso muito legal e mudam as palavras pra dizer a mesma coisa “…caso ocorra, há risco de ortotanásia”. Aí o público leigo não se sente intimidado frente ao uso do medicamento, e a gente ainda pensa – se está avisando, não deve ser boa coisa. Embora o texto da bula provoque sensações e produzem efeitos estéticos, ele não se preocupa em nos permitir sermos homens melhores, na verdade essa “estética” procura vender a droga, procura não afugentar os compradores… Isso não é literatura.

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Outra coisa que não é literatura… Manual de montagem. Não importa o que você vai montar, não adianta usar o manual. Hoje em dia temos o YouTube, joga lá “como montar…” e você vai encontrar um passo a passo do que fazer. Certa vez meu cunhado trancou o carro com a chave na ignição (na época em que era possível fazer isso), ligamos para o chaveiro e ele cobrou taxa de visita, taxa da abertura da porta, taxa de fim de semana e taxa de comprovante de pagamento das taxas anteriores. Estou exagerando. A última não existiu. Mas, pensei no YouTube e se dava pra evitar pagar tão caro para abrir uma porta. Consegui abrir o carro em menos de cinco minutos. Bastou ver o tutorial que, obviamente não era pra aprender a roubar carros, cinco minutos é muito tempo para isso. Voltando ao assunto dos manuais, há tutoriais para tudo, evita-se lançar em seguir um texto que mais confunde do que explica. Tente montar um brinquedo para o seu filho ou para o seu neto seguindo o manual do fabricante… A frustração é iminente. Manuais dos fabricantes não são literatura, e ponto final.

Mapas. Sinceramente, mapa não é literatura, gente! Há coisas nos mapas que são regras opostas do que se deve fazer. Bem vindos à modernidade e à funcionalidade dos eletrônicos mapas virtuais. Procurava uma construção indicada num mapa, porém a bendita havia sido implodida meses antes! Sirvo de chacota para alguns colegas até hoje, seguir mapas que usam construções humanas é pedir para ir pra lugar nenhum. Imaginem, se coisas da natureza mudam, cursos de rios; Pequenas elevações; áreas verdes… imagine prédios!? Mapas não são literatura. Mesmo se tiver um poema dentro dele.

Existem muitas coisas que não são literatura. E existe muita coisa sem letras que são literatura. Música clássica é literatura sonora; quadros nas paredes é literatura dependurada; cidades barrocas, isso é literatura habitável; uma criança amamentando, fazendo aquelas bochechas rosadas inflarem com leite, olhinhos fechados, mãozinhas semi-abertas no peito… é poesia clássica. E há muitos, inúmeros exemplos de literatura que não são escritos. Aquela reunião de amigos num barzinho no inicio da noite, no fim de ano, uma cena pra ler demoradamente, alguns bebem de olhos fechados enquanto outros flertam, outros fazem um batuque na mesa pra outro se lançar a cantoria, tudo é composição para alguém mais atento fazer uma leitura e se deliciar absorvendo a energia que emana do momento de confraternização.

Então podemos arrolar textos longos na categoria dos “não literários”, livros que são um verdadeiro desperdício de tinta e papel, livros escritos por autores que deveriam ter sido instruídos a não tirarem aquelas aberrações da cabeça, trazendo à luz textos literários horrorosos (há clássicos que vão renascer para sempre), assim como há mimeses que não fazem parte de livro algum, estão por aí espalhadas esperando algum leitor atento, sensível, que faça a análise disponível, hora em cores, hora em sons, hora em paladares, hora pelo olfato, hora nos momentos palpáveis da degustação artística androfágica, ou não antropofágica, mas certamente literofático.

P.S. – literário – neologismo que pode significar algo capaz de garantir a função fática da linguagem, isto é, aquilo que é próprio da literatura.

*Paulo Siuves é escritor e presidente da Academia Mineira de Belas Artes

Foto: Pexels

O que é literatura?

Por Aden Leonardo*

Literatura é algo subjetivo. Tão subjetivo que demoramos em perceber isso. Quando jovem, eu, por ler muito, achava que sabia que literatura mesmo – mesmo com ênfase no “e” – era sobre clássicos. E clássicos são literatura, claro.

Acontece que com o tempo passando pelas janelas descobri várias outras literaturas. Tenho pena daquela pessoa que fui por achar que soubesse.

Adoro escritas certeiras. Situações bem  nossas ou que sabemos ser próximas da gente. Chamo de livro delícia. Uma delícia. Se o autor abusar escrevendo um livro de receitas veganas com práticas culinárias do Himalaia, eu compro! Porque a escrita é macia.

Tem também a escrita lancinante. Impossível de ler rapidamente. Livro exercício: abre e fecha. Levanta e volta. Maneiras de pensar, refletir. Vazios na página tão grandes quanto nosso ser inteiro.

Existem livros que tenho dúvidas se acabei de ler. Inteligentes.  Um entrar num mundo fantástico de referências. Como alguém pode ter tantas ideias? Um livro inquieto! Ótimo!

Tem literatura que já se fixa na capa. Porque literatura também é um admirar. A arte. Capa dura, um desenho também retrô. Elástico para fechar as laterais, marcador de fita, páginas levemente amareladas, letras azuis… Parece uma bíblia de palavras.

Tem literatura de ironia, uma auto sabotagem do autor.

Já o rótulo da literatura contemporânea: o mais interessante na contemporaneidade é a não-linearidade. Ou fatos despercebidos que são histórias incríveis. Um resgate de família. O lidar com o medo, com a dor que guardamos no fundo da alma ou escondemos numa gaveta secreta da mente. Uma espécie de absurdo teatral, mas bem possível de penetrar nosso dia a dia, nos nossos segredos, naquilo que sequer conseguimos encarar para saber… Um romance? Um documentário? Uma história? De leitor para a vítima do livro.

Já me acometi de livros que me fizeram  andar pensando pelo prazo de mais ou menos para sempre. Um livro que te afunda. Afunda lindamente na tristeza de um personagem. De ficar triste para três vidas.

Literatura é uma profusão de si mesmo, de algum interior lindo… Posso divagar em intermináveis definições, que obviamente literatura não é opinião de leitor. Mas o leitor é quem lê, sujeito que divaga. Literatura é som. Tem até volume, decibéis se você prestar bem atenção, ouvirá. Recomendo o máximo ruído na sua cabeça. Se é livro, é para embriagar-se.

Se é literatura, bom… Já não importa mais

*Aden Leonardo é minha leitora crítica, revisora e escritora itaunense.

Foto: Pexels

PRÊMIO CASTRO ALVES DE LITERATURA 2020

I – DOS OBJETIVOS

Art.1º – O Prêmio Castro Alves de Literatura, regido por este regulamento, tem por objetivo premiar autores inscritos por meio da seleção de 3(três) trabalhos em cada categoria: POESIA E CONTO, nas versões regional, estadual e nacional.

II – DAS CONDIÇÕES

Art.2º – Poderão participar do concurso autores residentes em um dos 13 municípios que compõem o Território de Identidade do Extremo Sul da Bahia (versão REGIONAL); autores residentes nas demais cidades baianas (versão ESTADUAL); e autores residentes nos demais estados brasileiros (versão NACIONAL).

Art.3º – O texto apresentado deverá ser rigorosamente inédito, seja na forma impressa ou eletrônica.

Parágrafo único – Serão automaticamente desclassificados textos publicados em blogs, sites ou em quaisquer outras formas de divulgação.

Art.4º – Cada concorrente poderá participar com apenas 1(um) texto, com temática livre, sendo vedada a coautoria.

Parágrafo único – Os participantes poderão concorrer em apenas uma categoria, enviando os trabalhos numa única mensagem de e-mail.

Art.5º – Os autores deverão utilizar fonte Times New Roman, tamanho 12, com espaçamento duplo, do processador de texto Word.

Parágrafo único – As inscrições serão gratuitas.

Art.6º – Os trabalhos deverão ser enviados para o seguinte e-mail: premiocastroalves@yahoo.com

Art.7º – As inscrições estarão abertas de 06 de dezembro de 2019 a 06 de janeiro de 2020.

Art.8º – Os textos, em documentos anexados, deverão apresentar o título, o nome civil do autor (não é necessário pseudônimo), endereço completo e breve currículo.

III – DA SELEÇÃO

Art.9º – O julgamento será feito por comissões julgadoras – compostas por membros da ATL e da Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores (ACLAPT).

Parágrafo primeiro – Os membros da Comissão Julgadora não terão acesso aos nomes dos inscritos, mas apenas ao número de inscrição.

Parágrafo segundo – A ACLAPT é parceira da ATL na realização da 4ª edição do prêmio. Por isso, é vedada a participação dos membros da instituição capixaba no certame literário.  

Art.10º – A avaliação dos textos será realizada com base nos critérios de originalidade, criatividade e qualidade técnica.

Parágrafo único – As decisões da Comissão Julgadora serão irrecorríveis.

Art.11 – A classificação final será anunciada na primeira quinzena de fevereiro de 2020 e divulgada nos meios de comunicação de massa e, também, enviada por e-mail aos vencedores.

IV – DA PREMIAÇÃO

Art.12 – Serão selecionados 3(três) trabalhos em cada uma das duas categorias, nas três versões, os quais receberão a seguinte premiação:

I – 1º lugar em cada categoria: um troféu e certificado;

II – 2º lugar em cada categoria: uma medalha e certificado;

III – 3º lugar em cada categoria: uma medalha e certificado.

Parágrafo único – Os trabalhos classificados do 4º ao 6º lugar, em cada categoria, nas três versões, receberão diplomas de menção honrosa.

Art.13 – Os classificados serão notificados formalmente e comunicados da data da sessão solene para outorga da premiação que ocorrerá em 14 de março de 2020, Dia do Nascimento de Castro Alves.

Parágrafo único – Na impossibilidade do comparecimento, o premiado poderá mandar um representante de posse de uma declaração assinada pelo titular do prêmio.

V- DAS DISPOSIÇÕES FINAIS

Art.14 – Os textos recebidos não serão devolvidos.

Art.15 – A participação neste concurso implica a aceitação total e irrestrita de todos os itens.

Art.16 – Os casos omissos serão resolvidos em comum acordo pelas comissões organizadora e julgadora e diretoria da Academia Teixeirense de Letras.

Teixeira de Freitas (BA), 05 de dezembro de 2019.

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Almir Zarfeg (Comissão Organizadora)

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Fabiano Novais (Comissão Julgadora)

Noite de autógrafos com Maria Rita Londe

Por Toni Ramos Gonçalves

A empresária e escritora Maria Rita Londe lançou em Itaúna-MG  os livros A Sétima filha e Mosaicos reunindo amigos e familiares no bar Caverna Beer na noite de sexta-feira, 29 de novembro de 2019.

A novela A sétima filha narra as aventuras da jovem Maria que descobre ser uma pessoa mística e predestinada a magia.

Já o livro Mosaicos, um livro de poemas, tem o prefácio de Almir Zarfeg que é jornalista e poeta consagrado no sul da Bahia.

Os dois livros foram publicados de forma independente pela Editora Ramos.

Para adquirir os livros:

A sétima filha: https://pag.ae/7VvyVbksL

Mosaicos: https://pag.ae/7VvyVbksL

Confira alguns momentos!

Maria Rita Londe
Maria Rita Londe e Tânia Guimarães, escritoras da Editora Ramos
Maria Rita e amigas
Maria Rita e o colunista Luiz Parreiras

A debutante

Foto: Pexels

Por Toni Ramos Gonçalves

É madrugada. Luz apagada, somente a claridade da lâmpada que ilumina a rua que insiste em penetrar suavemente através da fresta na cortina. Sentado na poltrona macia que adere as formas de meu corpo, seguro o copo de vinho numa das mãos e o cigarro na outra, ouço a música distante, de alguma festa das casas vizinhas, que faz o fundo do ambiente onde o silêncio predomina.

Só dentro de mim ele não existe.

Fecho os olhos e viajo recordando toda uma vida. Não, não é toda uma vida, mas é como se fosse. Afinal de contas, não faz tanto tempo assim, mas, desde o primeiro instante, foi com se a gente sempre tivesse se conhecido.

Vejo-a ainda dançando no seu baile de debutante. Uma verdadeira princesa, deslumbrante. Todos os rapazes queriam dançar com ela. No salão, parecia uma bailarina profissional. Sua leveza chamava a atenção de todos. Ela me encantava. Naquele momento eu daria tudo para ser trinta anos mais jovem. Queria ser notado tanto quanto a notava. Era menina, mas seu belo corpo eu podia imaginar através das sedas que o cobriam.

E o desejo tomava conta de mim. O melhor seria sair dali porque eu mesmo já tinha dúvidas se conseguiria me controlar e não demonstrar o meu interesse por ela, às outras pessoas. Foi depois da valsa que eu me enchi de coragem e a convidei para dançar. Preparei-me para uma desculpa qualquer da parte dela, pois tantos eram os rapazes de sua idade que lhe rodeavam.

Fiquei surpreso embora já tivesse notado sua gentileza para com todos, quando a vi segurando o meu braço e me levando para o meio do salão. Eu tremia. Sentia-me um adolescente. Jamais havia dançado daquela forma, com tanto entusiasmo, transbordando carinho, orgulhoso do meu par.

Ao terminar a música, agradeci respeitosamente, mas a surpresa maior ainda estava por vir.

Puxando o meu braço com doçura, perguntou meu nome, quem eu era e sugeriu que mais tarde voltássemos a dançar. Agradeci e concordei rapidamente, temendo que ela desistisse do convite. Voltei à mesa onde estava o casal amigo que me levara ao baile. Queria fazer perguntas sobre ela. Mas sabia que isso chamaria muito a atenção. E me calei. Preferi apenas contemplá-la de longe. Não via mais ninguém além da formosa debutante.

A noite avançava, o dia ameaçando raiar no horizonte e queria mais uma oportunidade de uma dança, que eu não deixei escapar. Como da primeira vez, ela sorriu, abraçou-me meio à distância e saímos dançando. Eu devia estar louco, porque tinha a impressão de que ela sentia o mesmo que eu. Sentia seu corpo aproximar-se cada vez mais do meu. Sentia sua respiração forte, seu coração acelerado. Por alguns instantes senti que estava trêmula como eu.

O baile acabava e eu não sabia como fazer para pedir-lhe um telefone, o endereço, ou alguma outra forma de poder reencontrá-la. Mas ela pressentiu meu desejo, que talvez fosse idêntico ao dela, porque se adiantou pedindo o meu celular e foi anotando o seu número.

Eu estava feliz, ela não tinha se importado com meus cabelos já grisalhos, nem com a possibilidade de parecer seu pai. Ela também queria me ver novamente e isso era tudo que eu queria!

Com um autocontrole que nem mesmo eu entendi, deixei passar o fim de semana sem procurá-la, telefonando apenas no meio da semana seguinte.

Agora, aqui neste silêncio, minha alma grita e chora enquanto bebo e fumo um cigarro atrás do outro, sem conseguir conter as lágrimas. Procuro forças para voltar a viver, porque talvez a vida jamais volte a ter, para mim, a mesma razão que existia antes.

Deixei de ser o mesmo homem quando sua mãe, entre lágrimas, contou-me o terrível acidente ocorrido quando ela viajava para o litoral.

Naquele domingo, a estrada molhada pela chuva torrencial levou não só minha debutante, mas meu coração e parte da minha vida.

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Pensar…

Análise critica de Wagner Andrade

É preciso dizer que estão em jogo na narrativa, duas formas de experiências aparentemente bem distintas e também distantes, parecendo situar-se em dois polos opostos.

 De um lado a presença do adulto com um bom tempo já vivido, a maturidade presente, mas a sentir e a experimentar aí a própria experiência renovada.

Do outro, a jovem adolescente a debutar-se de fato para a vida, a encarar os primeiros desafios, no começo de um florescer, tendo em frente praticamente toda uma vida, diante de si, o caminho para a maturidade afetiva, interrompida bruscamente, nesse caso, com o destino trágico.

O que passa a unir essas duas experiências é uma forma de desejo compartilhado que se mostra também presente no interior da jovem, mas que se revela igualmente renovado no âmago do ser adulto.

Desejo que parece, da mesma forma, se abrir e se debutar ante o contato com a jovem, e que vem a se converter em amargura, ao saber da sua dolorosa perda.

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