Zarfeg comenta “Diário de uma artista no pensionato”, de Andreia Donadon Leal

Por Almir Zarfeg*

Zarfeg exibindo exemplar do romance “Diário de uma artista no pensionato”

Andreia Donadon Leal marca sua estreia no romance com este “Diário de uma artista no pensionato” (Aldrava Letras e Artes, 2023) e, assim, adiciona mais uma importante realização à sua trajetória artística que já conta com inúmeras obras literárias (em verso e prosa) e também com pinturas em mostras individuais e exposições internacionais coletivas. Ela faz parte do grupo que lidera, desde o início, o Movimento Aldravista em Minas Gerais.

A obra é organizada em forma de diários, esse gênero textual que está vinculado à tipologia descritiva. No romance em questão, contudo, convém falar em tipologia narrativa, uma vez que se trata de ficção com as marcas da autobiografia ou autoficção, como se costuma dizer atualmente.  

Diários, com efeito, através do quais os protagonistas – a artista/esposa e o professor/esposo – se manifestam em sua intimidade, expressando suas opiniões e reflexões sobre a relação a dois, as situações cotidianas e as coisas que os cercam antes e durante o transcorrer da ação fabular.

Desses mesmos diários – que vão dar unidade à narrativa, sucedendo-se ao sabor dos acontecimentos – também vão lançar mão os chamados personagens secundários, como a faxineira, a senhorita, o ex-padeiro e o estudante de medicina.

Outros recursos textuais e/ou estilísticos – como as cartas (enviadas pelos parentes da protagonista), o correio eletrônico (e-mail), a notícia de jornal, a pintura e o poema – também têm espaço garantido no romance de estreia de Andreia Donadon. Uma estratégia que se nos apresenta interessante (e até reveladora) na medida em que o livro vai, o tempo todo, estabelecer vínculos entre interior e capital, presente e passado, equilíbrio e desequilíbrio emocional, arte e antiarte.

Portanto, se à primeira vista o livro não traz nenhuma novidade da perspectiva da história – mesmo porque o tema é a paixão (pathos) e seus desdobramentos –, o enredo é construído de maneira eficiente e envolvente, de sorte que, ao final, ficamos com a sensação de que fomos impactados pelo drama da protagonista e, também, pelo “modus operandi” da narradora em tornar sua ficção convincente.

Longe de nós distribuir spoilers e, portanto, em vez de oferecer detalhes da história de amor entre a jovem artista interiorana e o professor universitário, vamos nos concentrar no enredo e nos aspectos constitutivos da arte de narrar.

A segunda parte do romance – marcada pelo que se convencionou chamar em teoria literária de ponto de virada – brinda os leitores com a mocinha chegando à “Pensão da Capital” ou pensionato, para passar uma temporada ou dar um tempo. Por conta própria e perturbação emocional, ela resolve deixar o marido e partir para a aventura. Pretende mudar de ares e, ao mesmo tempo, tocar sua carreira de pintora e escritora. Mas continua mantendo contato com o marido compreensivo via e-mail.

A ida da protagonista para a cidade grande, independentemente de qualquer ligação com a vida real da autora, acrescenta muito à obra, pois a encontramos a partir daí num universo completamente diferente, pleno de novidades e repleto de motivações. Agora ela se cura da depressão socializando com os novos amigos, sobretudo com o estudante de jornalismo, também se entregando de corpo e alma à criação artística – pintando e escrevendo – no quarto convertido em ateliê.

É nesse cenário habitado por tipos humanos e suas idiossincrasias que a autora vai enriquecer sua obra, não com artifícios formais, mas imprimindo coloquialidade e empatia à narrativa. Os dramas humanos – narrados na 1ª pessoa de maneira simples, comovente e com competência técnica – envolvem os leitores, atraindo-os e tocando-os profundamente.

Mais do que a rotina dos pensionistas, como os estudantes de jornalismo e medicina, o ex-padeiro e a senhorita (senhoria), Andreia explicita toda sorte de desafios materiais, familiares e psicológicos que determinam a vida de cada um deles. Sem fazer concessões de qualquer natureza.

Nem o final feliz – previsto e ansiado por muitos de nós – consegue superar a descrição do assassinato do estudante de jornalismo, numa das cenas mais impactantes do livro. Trata-se de um homossexual equivocado ideologicamente para quem viver é mais perigoso do que supunha Guimarães Rosa, pois pressupõe a rejeição social e familiar que beira o determinismo e a maldição inevitáveis. A morte dele – cujas cinzas são espalhadas pelo jardim da pensão como forma de homenagem – nos conduz às lágrimas.

A aula de semiótica – nas versões americana e europeia – constitui um espetáculo à parte protagonizado pelo professor. Compartilhada com os leitores, a lição semiótica/semiológica não teria sido tão bem-sucedida sem a ajuda desse gênero textual eficiente chamado diário. Um acerto da narradora Andreia, que não deve ser confundida com a personagem da trama.

O primeiro romance de Andreia Donadon, portanto, pode ser classificado como de formação, confissão, autobiográfico ou autoficção. Mas tudo isso precisa importar menos do que reconhecer o talento dela ao absorver a atenção do leitor, segurar pela mão e o conduzir do início ao fim da fábula. Até porque, leitor, “de te fabula narratur”. (risos)

*Almir Zarfeg é poeta e jornalista. Presidente de honra da Academia Teixeirense de Letras (ATL).

Um comentário em “Zarfeg comenta “Diário de uma artista no pensionato”, de Andreia Donadon Leal

  1. Boa análise, a que se pode chamar resenha sobre uma obra, Diário de uma Artista no Pensionato, da ‘poetisa’ e romancista, além de pintora consagrada, Andreia Donadon Leal, nome charmoso. Parabéns ao comentarista, o analista de Itanhém e da ATL, Zarfeg, que tem mostrado, demonstrado e provado toda a sua cadência literária nesse trabalho meticuloso de ponderar conceitos sobre obras literárias, qualquer que seja o gênero, como sabemos disso e o temos visto. O confrade é magistral nesse dom vernáculo, com a linguagem própria em cada momento e espaço, com vieses bonitos sobre cada capítulo, ou partes da obra. Assim, deve ser um bom crítico literário, de elevado naipe cultural, que não se encontra em qualquer canto. Se perguntamos onde estariam os grandes analistas de obras literárias neste Brasil, a resposta seria de que residem nos grandes centros, as capitais tantas deste Continente brasiliano. Mas se enganam outros que não admitiriam vê-los em rincões simplórios, como aqui no Extremo-Sul desta Bahia ‘universal’, como aqui em Teixeira de Freitas, como por entre os valorosos companheiros da Academia Teixeirense de Letras, agremiação que vai ganhando espaço (não se espantem com essa vertente). Isso é certo. Repitamos os cumprimentos ao jornalista e desejemos sucesso à autora da obra. Louvadíssimas ovações a ambos. Eu lhes agradeço pela boa leitura há pouco consumada. João Carlos de Oliveira, o poeta-advogado, cadeira 27.

    Curtir

Deixe um comentário