Por Nivaldo Resende
Ensimesmado, sentado na velha cadeira de palhinha que tinha lugar cativo sobre as quase apodrecidas tábuas na rangedeira varanda da fazenda que, contra tudo e contra todos, insistia em manter nos Macaquinhos, a meio caminho entre Joanésia e Dores de Guanhães, o velho Nacreto cofiava a barba comprida e esbranquiçada, cheirando a Aqua Velva, e dizia com uma certeza redondamente absoluta, ainda que desconfiadamente suspeita:
“O mundo fica estranho purdimais, Sô Jão, quando a capacitância se torna muito mais importante e necessária do que a capacidade que nos espreme de dentro para fora pela força do tempo”.
E dizia isto assim calmamente, muito mais de si para si mesmo do que para quem mais pudesse ser, conversando com os já esgarçados botões da sua velha camisa de flanela xadrez. Falava com e para os seus próprios fantasmas, ainda que, ao seu lado, picando sem qualquer pressa o cheiroso fumo curtido no melado que dentro em pouco a sedosa folha de palha de milho iria agasalhar, estivesse João Natório, um companheiro de jornada renitente nas lides campestres, tão teimoso e rançoso quanto, senão com certeza mais, ou não mais estaria lá, porque tolerar ordens exige se atoleimar dentro da própria inteligência e conhecimento.
Ocorre que a pedra do velho munho d’água que durante várias gerações moera a fubá e a quirera que alimentaram gentes e bichos de todos os tipos e estilos da Tronqueira Torta – esta era o nome da fazenda desde os tempos reinóis – cismara de repente de não mais dar conta do recado.
A profissão de lavrador de pedra mó definitivamente entrara em extinção, após um longo desuso e devido à pouca necessidade. Até que ainda havia quem ousasse escalavrar as peças de madeira macia, aquelas que faziam o moinho supitar e cuspir os subprodutos do dourado milho que era ali mesmo plantado, mas a pedra, ah… a pedra. Se uma só deles, pequenina, fizera o itabirano vate trupicar até nas palavras, o que dizer de nós e mós?
Milho fraco em pedra dura, tanto faz até que a pedra gasta. Foi quando um dos parentes da última e mais recente linhagem da família de Nacreto veio com a salvadora ideia de substituir o velho e cansado munho d’água por uma traquitana elétrica, uma modernosa coisa que produzia fubá, farelo, quirera e canjiquinha da boa e da melhor, e que fazia isto muito mais rápido do que o velho fazendeiro conseguiria dizer um trigo, dois trigos, três trigos.
Pedante, o moleque conselheiro estudava na cidade grande, e não por isso, mas creio que mais pelo topete que saía do alto da cabeça, dava a volta ao pescoço e quase se enrolava na língua, achava que já sabia tudo, e mal sabia o tamanho da fralda e para que ela servia.
E toca a discutir a potência do motor, volts e watts, a impedância, a capacitância, o disjuntor, os retentores, bitola da cabância, eixo rotor, corta-corrente, ticéteras e quetais, nefandos e quejandos. E era tudo aquilo como grego ou turco fosse para Nacreto e Natório, enquanto ouviam as explicações que quem queria instalar e de quem queria vender o que precisava e o que não precisava para substituir o velho munho d’água.
Nacreto, que a vida inteira lutara sem sustos e sem pressa com as bicheiras no lombo dos animais que criava na fazenda, para montaria uns, leiteria outros, e para comeria a maioria, tinha dificuldade em entender aquelas palavras difíceis e a urgência delas, principalmente. Cascavéis e urutus, assim como uma ou outra suçuarana ou pintada que ousasse invadir suas terras, sabia bem ele o que fazer com elas. Mas aquelas palavras, ah… batiam no seu grogomilho e devorteavam.
Às tantas, foi se enfumaçando por dentro o fazendeiro. As botinas puídas e ainda embosteladas após a tiração do leite ficavam mudando de lado, acima e abaixo, de conforme e de acordo Nacreto ia cruzando as suas impacientes e um tanto que cansadas pernas. Rangiam e rilhavam, as botas embaixo e os dentes em cima.
O fazendeiro mastigava trocos e ignorâncias verbais, mas não tinha certeza de devia de fato proferi-las ou não. Na dúvida, engolia-as, mesmo com vontade de regurgitá-las tal e qual faziam as vaquinhas e boizinhos com o seu delicioso bolo forrageiro.
Não há como lutar contra a modernidade e a tecnologia, entretanto, vez que agora são elas que movem o mundo, seja dos limpos ou dos imundos, chamem-se eles Nacretos, Natórios ou Remundos.
E mesmo tugindo e mugindo, mesmo mastigando brocas, moscas e barbantes, o velho Nacreto teve que aceitar a troca do equipamento, visto a que era grande a precisança. Tugiu e mugiu não pelo gasto, mas pelo desgosto. Fora, afinal, uma vida inteira mantendo uma relação quase de amor milharal com o munho, levando-lhe sacos e mais sacos de grãos novos e pegando em troca o cheiroso fubá, que depois virava uma quente e doce caneca de jacuba com café e queijo, virava farinha torrada, angu, mingau, farofa doce, paçoca, fubá suado e pamonhas assadas enroladas na folha de bananeira, tidas, havidas e consumidas com o nome de cubus.
Sabia muito bem Nacreto que o produto resultante do moinho elétrico era bastante diferente, não tinha o mesmo gosto do outro, nem o cheiro, menos ainda a textura. Até que servia, seguindo a teoria de que “se não tem tu, vai tu mesmo”, mas não era a mesma coisa. Com a língua amargosa, depois de muito remoer e remugir, chamou Natório num canto e disse: “Vou castigar aquele catarrento mequetrefe que veio com essa ideia de jirico”. Mal pensou, e logo fez. Chamou o indigitado herdeiro e ordenou: “Só deixo trocar o munho se, enquanto um não toma os jeitos e obrigações do outro, você moer o milho do meu fubá no pilão”.
Crente que estava agradando, concordou o jovem com a imposição. E ao que parece, cumpriu-a. Parece, não sei, porque ver, não vi. Ouvir contar, também não. E que minha língua não apodreça debaixo da terra se verdade isso não for. Só sei que, até hoje, Nacreto e Natório, pachorrentamente sentados na varanda rangente da velha Tronqueira, ainda se pocam de rir do causo. E as cicatrizes na mão do desditoso patrão da ideia não me deixam mentir sozinho, ara… A vida é um gozo, num é mermo, inhô?

*Nivaldo Resende é jornalista e escritor. É titular da Cadeira 17 na Academia de Letras de Ipatinga e na Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil de Mariana, além de integrar o Clube dos Escritores de Ipatinga. Tem dois livros individuais publicados e participação em dezenas de antologias de contos, crônicas e poesias.