Por Toni Ramos Gonçalves
É sabido que Itaúna não se preocupa em preservar sua memória e muito menos busca levar ao conhecimento do povo itaunense os grandes escritores que nasceram na cidade e conquistaram fama além de nossas fronteiras. Lembram-se daquele ditado? Santo da casa não faz milagres. Então, apesar de boa parte da população brasileira ser preconceituosa com toda arte tupiniquim (cito aqui literatura, teatro, música e cinema), eu simplesmente adoro e faço questão de prestigiar toda arte made in Brazil e principalmente a regional, sem querer ser bairrista.
Na fundação da Academia Itaunense de Letras (eu fui um dos fundadores e primeiro presidente na gestão 2015-2017), um dos principais objetivos era preservar a memória de nossa literatura. Exemplo disso foi a escolha para patrono da AILE o nome de Oscar Dias Corrêa (sugerido por Wagner Andrade, poeta itaunense). Ele foi o único itaunense até o momento a ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Em minha opinião, uma justíssima homenagem. Porém, essa informação poucos itaunenses conhecem. E assim acontece com outros escritores desta cidade.
Pois bem, caro leitor, por isso torna-se necessário levar esse conhecimento a todos, numa forma de incentivar novos talentos e assim mostrar que podemos sim ser destaque no cenário nacional. Por eu ser muito curioso, há muito tempo pesquiso sobre quem seria o pai da literatura itaunense – aquele que publicou seu primeiro livro. A princípio, em primeiras conversas com outros escritores, eu disse que provavelmente o pioneiro seria Mário Matos. Como sempre fui questionado e ignorado pelos letrados, algo normal. Bem, como eu não sou muito de dar atenção a críticas, continuei minha pesquisa e conclui até o presente momento que o pioneiro da literatura itaunense é Mário Matos. Pode ser que futuramente apareça algum outro documento que prove o contrário, pois a história quando pesquisada a sério pode resultar em surpreendentes revelações.

segundo o colunista Cosme Silva em seu artigo de jornal.
Nesse momento, não vou me aprofundar em detalhes sobre a vida e obra de Mário Matos, pois tenho pretensões de escrever sua biografia e publicar pela Editora Ramos.
Mário Gonçalves de Matos nasceu em Sant’Ana do São João Acima (atualmente Itaúna – MG), em 23 de setembro de 1891 (ou em 1888, já que faleceu com 78 anos). Dedicou-se, com êxito, ao jornalismo, à literatura e ao teatro. Escreveu em Itaúna, 1912, o teatro de críticas aos costumes, à revista “A chegada do Presidente”. As revistas “Seu Anastácio chegou de viagem” no ano de 1914, “Itaúna em fraldas de camisa”, de 1920, e a bela opereta “Cigarras do Sertão” em 1925.

O seu livro “Discursos” foi publicado em 1927, seleta de discursos, ensaios e conferências literárias, que lhe valeu a eleição unânime para a vaga de Diogo de Vasconcelos na Academia Mineira de Letras, que chegou a presidir por quatro biênios, a saber: 1935-1936; 1937-1938; 1955-1956 e 1957-1958. Em 1935 publicou um ensaio crítico sobre Afonso Arinos, intitulado “O último bandeirante”. Completa sua bibliografia os seguintes livros: Machado de Assis, de 1939; Último canto da tarde, (poema) de 1938; O personagem persegue o autor, (ensaio) de 1945.

Mário Matos durante sua permanência no Rio de Janeiro enquanto cursava Direito (entre 1918 e 1920) auxiliava o inesquecível ébrio de nossa literatura Lima Barreto, publicando suas crônicas no Jornal ABC (pesquisadores ainda buscam informações mais detalhadas sobre a revista ABC). Também foi elogiado por Carlos Drummond de Andrade pelo seu livro “A casa das três meninas” (1949). Segue o comentário do ilustre poeta:
“Os contos da “Casa das três meninas” são uma delícia. Gostaria de reencontrar nas livrarias este volume para oferecê-lo de festas aos amigos, no ano novo. Quem o possui, aconselho que o abra e leia ao acaso uma das histórias, e terá a impressão de estar vendo e conversando Mário Matos, em seus momentos mais encantadores (…)
Ele foi braço direito e responsável pelos discursos de Benedito Valadares (Político brasileiro e natural de Pará de Minas).
Mário Matos faleceu em Belo Horizonte em 28 de dezembro de 1966, deixando um grande legado na literatura e política. Em 05 de janeiro de 1967, Ivan Lins fez uma homenagem na Academia Brasileira de Letras para ele, publicado no dia seguinte no jornal Correio da Manhã.

Foi o seguinte discurso do acadêmico Sr. Ivan Lins (reprodução do jornal):
Grande claro é o que ocorre, nas letras de Minas e do País, com o falecimento de Mário Matos. Escritor de altos méritos, a ele se deve a um dos mais penetrantes ensaios sobre Machado de Assis, onde estuda o homem e a obra, explicando o autor pelos seus personagens.
Notável também é seu livros sobre Afonso Arinos, por ele publicado em 1935: O Último Bandeirante, onde revela muitos traços significativos que haviam escapado a fina obra de arte e gosto consagrada, ao escritor mineiro em 1922, por Tristão de Athayde.
Conversador admirável, era capaz de manter, horas a fio os seus interlocutores presos a magia de sua palavra.
Depois de ter sido deputado federal, havendo grampeado, no Rio, grande círculo de amigos e admiradores, retirou-se para seu estado, onde exemplarmente exerceu a magistratura, tendo sido um dos mais respeitados desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas.
Foi também um jornalista de valor e um dos mais destacados membros da Academia Mineira de Letras. Pela sua obra e pelo seu excepcional talento, Mário Matos é dos muitos elementos não só da Academia Mineira de Letras, como de outras Academias Estaduais do Brasil, que já deveriam ter tido ingresso na Casa de Machado de Assis, que a timidez, o distanciamento do Rio de Janeiro e demais percalços ligados às eleições desta casa nos tem nos privado da glória e do prazer de seu convívio.
Poeta lírico, tendo composto belos sonetos com pseudônimo de Alberto Olavo, no qual deixara transparecer os seus entusiasmos pelos epígonos do nosso parnasianismo, aderiu, de certa forma, ao modernismo, dizendo em 1929, com malícia mineira, ao responder um inquérito promovido pelo Diário de Minas, ser o soneto um dos entraves a economia brasileira. Ninguém calcula o desperdício de energia que um homem desbarata para fazer um soneto parnasiano. E se o soneto se torna célebre, persegue o autor como um remorso vivo.
Como salientou Carlos Drummond de Andrade na crônica que lhe consagrou no Correio da Manhã, de 30 de dezembro último, os contos de Mário Matos enfeixados na Casa das três meninas, são de uma delícia a quem os ler terá a impressão de estar vendo e conversando com Mário Matos em seus momentos mais encantadores – o mesmo que, ainda a pouco, dizia em conversa, comentando as bolsas econômico-financeiras em experimentação no país: “Antigamente eu comprava e pagava, hoje, não compro e continuo pagando…”
No volume de Vivaldi Moreira: Figuras, Tempos e Formas, que tive o prazer de oferecer a Academia, em agosto do ano passado (1966), o brilhante criador de Minas em foco, estuda Mário Matos em três lúcidos ensaios que bem o definem como homem e escritor: Mário Matos em três tempos. Rendendo homenagem ao seu talento de escritor e a sua formação moral de mineiro da velha guarda, é com o mais sincero pesar que registro seu falecimento, o qual representa imenso desfalque na intelectualidade brasileira de nossos dias.
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A sua vida e obra são extensas. É preciso pesquisar e buscar mais informações sobre esse grande escritor. Além dele existem outros grandes talentos itaunenses que precisam ser relembrados pela sua ótima qualidade literária. Por isso, convido aos curiosos, estudiosos, historiadores, instituições acadêmicas a buscarem essas informações em busca do merecido reconhecimento.
Agradeço o apoio dos amigos Charles Aquino e Patrícia Nogueira pelas informações gentilmente cedidas, que ajudarão na composição da mencionada biografia desse pioneiro da literatura itaunense.
Toda informação será bem vinda!
No mais, até breve!!!

REFERÊNCIAS:
História de Itaúna Volume 1 (1986) – Miguel Augusto Gonçalves de Souza
Glycose no sangue (1936) – Tese de Oromar Moreira
A messe de um decênio (1932) – A. A. de Lima Coutinho
Lima Barreto – Triste Visionário (2017) – Lilia Moritz Schwarcz